Por Renato Rovai
Está sendo um show e tanto a cobertura midiática do caso Mr. Larry, um daqueles tantos jornalistas que ficam famosos pelas babaquices que escrevem. Até registrar que foi torta a reação do governo Lula, pouco eficiente e muito espalhafatosa, é bastante razoável. Mas a comoção dos grupos midiáticos está longe de ser algo que busque uma certa racionalidade para o debate. Até porque o vírus anti-democrático atual se reproduz na lógica da mídia. Não existe liberdade de imprensa nas redações dos grandes jornais (com raríssimas exceções) nem daqui nem em outras partes do planeta. Não existe democracia para a manifestação ampla na comunicação. A qualidade da informação atual é miserável. E os veículos midiáticos têm cansado de dar demonstrações (em todos os cantos) de que são armas de longo alcance para golpes político-econômicos. Esse debate precisa ser feito no Brasil a qualquer custo e preço e tem bastante a ver com o caso de Mr. Larry. Como nossos conterrâneos Cláudio Humberto e Diogo Mainardi, que são citados na reportagem do NYT, Mr. Larry é um desses ególatras que buscam fama e dinheiro. Fazem parte de um grupo de jornalistas que infelizmente tem crescido e não se incomoda em escrever artigos baseados em informações falsas. E que se gabam de poder flanar por aí como “intelectuais” orgânicos de uma elite a que servem e são servidos. Cláudio Humberto é conhecido. Foi o homem da comunicação do ex-presidente Collor. O democrata do “bateu levou” e de tantas outras operações da turma honesta do whisky Logan (aliás, uma excelente pedida). O tal de Mainardi, estribucha toda semana em uma página da revista Veja e agora faz ponta no Manhanttan Conexion. Há quem diga que é um menino maluquinho. Mas não. Como um Jayson Blair ou Mr. Larry tupiniquim só manda bala em quem pode. Exerce sua liberdade de imprensa contra as minorias, a cultura nacional, os políticos mais progressistas etc e tal. Os grandes veículos de comunicação têm, ao contrário do que parecem supor quando clamam por liberdade de imprensa, semeado profissionais com essas características. E intencionalmente. Porque ganham com isso. As eleições indianas que tiveram seus resultados divulgados ontem foram mais uma prova da qualidade informativa atual. Veículos do mundo inteiro apontavam a modernização do país como o que há da mais “revolucionário”. E garantiam a eleição do candidato governista do BJP, partido que praticava uma política radicalmente neoliberal. A oposição venceu, como também na Espanha. A diferença é que na Índia não se pode atribuir a surpresa ao terrorismo. A desinformação programada também fez com que muitos acreditassem que, em 11 de outubro de 2002 , a Venezuela tinha se livrado de um maluco ditador. Houve comemoração em praticamente todos os grandes veículos daqui e de outras partes. Boris Casoy, que costuma tratar tudo como “uma vergonha”, chegou a denominar o ocorrido como um golpe-cívico. Arnaldo Jabor, com uma banana na mão, festejou a vitória da democracia no Jornal Nacional. A revista Veja anunciou a “queda do presidente fanfarrão”. Quando o povo, nas ruas, exigiu a volta do presidente que havia elegido e conseguiu sufocar o golpe, muitos veículos deram a notícia de maneira “jornalística”, como se não tivessem participado da festa golpista. Não é tarde para lembrar que a tentativa de golpe na Venezuela foi midiática e em nome da liberdade, inclusive de imprensa. O caso Mr. Larry pode parecer apenas uma bobagem mal conduzida pelo governo Lula. Pode até ser. Mas incomoda a falsa reportagem ter recebido meia página, na parte superior, ter foto e ainda ser publicada na edição de domingo. E, mesmo contra todas as evidências, ter sido tratada como correta pela direção do jornal. O que valeria a pena em todo esse imbróglio e que infelizmente parece interessar a poucos é discutir o quanto se consegue construir uma sociedade democrática sem uma grande diversidade de veículos produtores de informação. É incrível, mas do jeito que alguns colegas têm tratado a questão, parece que o cancelamento do visto de Mr. Larry é o que realmente nos cerceia a liberdade. É o que pode vir a nos impedir de transmitir informações com um grau maior de amplitude e veracidade. Seria tão bom ver esses mesmos cidadãos lutando por democratização nos meios de informação, ah, como seria.

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