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A sua rua tem nome de mulher?

De Chris Cidade Dias, para Coletiva.net

Crédito: Léo Salvador.

Você poderia adivinhar quantas ruas do bairro cidade baixa, um dos mais antigos da cidade, levam nome de mulheres?

Esse bairro, atravessado pela Getúlio Vargas, Érico Verissimo, José do Patrocínio, Venâncio Aires e Lima e Silva, teria sido marcado pela atuação de alguma mulher? Ou elas simplesmente inexistiam nessa época? Às vezes me parece que as mulheres chegaram no planeta muito depois dos homens tais a invisibilidade que a história teima em garantir.

Na verdade, o que sabemos sobre mulheres da região, é que iam à praia e eram belas. O que me parece péssimo pensando em tudo o que queremos e estamos construindo nessa vida. Qualquer adjetivo, hoje em dia, nos cabe melhor, do que aqueles relacionados à beleza.

Voltando ao tema, me dediquei a pesquisar e, olhem o que descobri. Entre presidentes, escritores, advogados e militares estavam duas mulheres: Baronesa do Gravataí e Sofia Veloso.

E o que sabemos sobre elas? 

Com vasta documentação, fotos e registros históricos, Maria Emília de Menezes da Silva Pereira, a Baronesa do Gravataí, foi casada com um português, rico de nascença e trabalho, Barão de formação, estendeu o título a esposa, nascida em 1802. Donos de uma extensa área na região na época em que a maior parte da riqueza obtida era fruto do trabalho escravizado. Há registro de muitos homens e mulheres ligados a essa propriedade, realizando trabalho escravo por mais de cem anos. Um incêndio acabou com o casarão obrigando a família a lotear a terra e assim terminando com a tradição e dando início a urbanização da área. Essa foi a Baronesa e a rua que leva o seu nome está no centro do lugar onde foram suas terras. 

Sofia veloso nasceu também no período em que vigorava a escravidão por aqui, em 1856. De origem nobre, vivia também próximo ao local que hoje leva seu nome, mas um detalhe fundamental diferenciava as duas.

Sofia era abolicionista, lutou contra a escravidão. Ativista, integrante do centro abolicionista onde grupos de mulheres promoviam encontros de mobilização social com intenção de busca de recursos para a compra de alforrias. Há registros de doações nominais de suas terras a entidades beneficentes.

Embora tenha desconfiado dessas narrativas (Quem escolheu os fatos para deixar registrado? Quem escreveu? Com qual intenção?), gostei de saber que, pelo menos duas, das mais de cinquenta ruas, nos convidam a buscar essas histórias. Encontrar o passado. Acordar. Esse é o primeiro passo para tentarmos mudar as coisas. Conhecer e trazer pra consciência é uma arma que não podemos abrir mão. É o que nos torna humanos. 

Por isso gostei de saber e me sinto bem cada vez que alguém deixa de ser invisível pra mim.

E você, já pensou o que fez a pessoa por trás do nome da sua rua?

Chris Cidade Dias é escritora, com trajetória na literatura infantil dentro e fora do Brasil, e vencedora do ‘Açorianos de Literatura’ de 2016.

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