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A Última Viagem de Bonde

Por J. A. Moraes de Oliveira Os bondes Prado e Independência eram o nosso túnel do tempo, que ligava a calmaria do bairro à …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Os bondes Prado e Independência eram o nosso túnel do tempo, que ligava a calmaria do bairro à sofisticação e modernidade do centro de Porto Alegre. Deixávamos para trás ruas sem carros e casarões silenciosos para subir e descer a Rua da Praia, fascinados pelas ricas vitrinas da Casa Krahe, da Sloper, da Cecilia Louro, os cinemas com suas poltronas estofadas e as confeitarias repletas de delícias.

Depois nos postávamos ao longo da rua, um pé apoiado no meio-fio, o chaveiro rodando no dedo direito, apreciando as moças, de braços dados, fazendo o “footing”, um estágio precursor do flirt e avô da paquera moderna.

***

Nosso ponto de partida para aquelas aventuras era a parada de bondes na Praça Júlio de Castilhos. Eu e meus amigos gostávamos de viajar de pé, na plataforma traseira, enquanto os mais afoitos, se penduravam nos corrimões  ou se balançavam nas correntes das portas, sempre com um olho atento na ronda do cobrador.

A festa já começava na Avenida Independência, com trocas de olhares e de encabulados sorrisos com as meninas debruçadas nas janelas dos grandes casarões. Nosso preferido era o bonde Prado, do tipo “gaiola”, que sacolejava e guinchava nos trilhos, indo e voltando até o Jockey Club, nos antigos prados dos Moinhos de Vento. Era impossível ignorar a passagem do bonde “gaiola”, pois seu barulho estridente fazia os transeuntes voltarem a cabeça para vê-lo passar.

Lá dentro, admirávamos os cartazes anunciando o Xarope São João, a Emulsão de Scott, o Iofoscal e A Saúde da Mulher… Por onde andarão aquelas maravilhosas poções?

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O regresso para casa, depois da última sessão noturna, era uma aventura que exigia alguns cuidados. O último bonde Independência saía pontualmente à uma hora da manhã. Os que tinham relógio de pulso eram encarregados de controlar o horário, para evitar a longa caminhada pelas ruas desertas. Agradável nas noites cálidas de verão, ingrata nas ventosas madrugadas de agosto.

Quando terminava a última sessão de cinema, era obrigatória uma parada no Matheus para um bauru com guaraná. Na banca da esquina da praça, do outro lado da rua, os jornais do dia seguinte começavam a chegar.

Antes de subir a Rua da Praia, havia tempo de comprar o Correio do Povo ou o Diário de Notícias ou dar uma espiada nas capas das revistas, ainda empacotadas: “O Cruzeiro”, “A Cigarra”, “Parati”, “Revista do Rádio”. Ao cruzar a Borges, o relógio iluminado da Casa Masson avisava que faltavam poucos minutos para o último bonde. Era a senha para descermos a Galeria Chaves em desabalada carreira, até o abrigo da Praça XV, bem a tempo de ouvir a sineta do motorneiro, avisando que estava saindo.

***

Com um guinchar de ferragens, o bonde quase vazio seguia pela Otávio Rocha, subia penosamente a Coronel Vicente e ganhava a Independência. No caminho, os guardas-noturnos apagavam letreiros de neon um a um, enquanto as cortinas de aço dos bares eram baixadas com estrondo, despedindo sem cerimônia os últimos boêmios.

Quando o João Carlos ou o José Luiz estavam conosco, o trivial bauru do Matheus dava lugar ao luxo da canja de galinha do Treviso, no Mercado. Lá pelas duas horas da manhã, cansados e felizes pelas inocentes aventuras noturnas, voltávamos para casa no imponente Kaiser do João Carlos ou no barulhento Jeep Willys cor-de-laranja do José Luiz.

Na Vasco da Gama adormecida e silenciosa, eu abria com cuidado o portão de casa para não acordar minha mãe. E deitava em silêncio, saboreando as adolescentes emoções da macia madrugada de Porto Alegre.

***

Em um dia nublado de março de 1970, o Correio do Povo noticiava em manchete que os bondes deixariam de circular, para serem substituídos por modernos tróleibus. Um colega da Folha da Tarde chegou para avisar que os velhos bondes estavam por ser desmontados e seriam vendidos como sucata. Naquele mesmo dia nos reunimos diante do bar do Joaquim, na Oswaldo Aranha, e de lá atravessamos, a pé, o parque até o depósito da Carris, na João Pessoa.

Um estranho quadro nos aguardava no grande pátio de paralelepípedos – dezenas de bondes amarelos, imóveis e silenciosos, ainda exibindo os letreiros da última viagem.

Convencemos o vigia a nos deixar entrar e iniciamos nossa busca, pulando de uma plataforma para outra nos bondes alinhados lado a lado. Havia os das linhas Azenha, Teresópolis e as “gaiolas” Duque e Gasômetro. Só fomos encontrar o que procurávamos, escondidos no fundo do pátio – todos os “camarões” Independência e as “gaiolas” Prado.

Foi como se o calendário voltasse para trás – homens adultos, fugidos de escritórios, bancos e redações de jornais, estavam sentados nos bancos de carvalho polido, enquanto outros puxavam a manivela do marcador de passageiros, ou mexiam nas alavancas inertes do motorneiro.

Os cartazes de propaganda estavam rasgados e irreconhecíveis. Mas um cartaz estava intacto – o da “Emulsão de Scott”, o pescador, com o bacalhau às costas, nos olhava com um ar tristonho, um personagem de outros tempos, de outra dimensão.

Anoitecia quando, cansados e em silêncio, caminhamos em direção à rua. Um de nós, aquele que sempre andava pendurado nas correntes, soltou um alavrão, correu para um Prado e, com raiva, apertou várias vezes o pedal da sineta de partida. Todos esboçaram um sorriso, como se tivessem reencontrado um brinquedo perdido.

***

Outras vezes percorri aqueles caminhos, tentando encontrar vestígios da nossa adolescência, buscando sons e imagens nas sombras dos raros casarões remanescentes.

Em uma certa tarde, a caminho do hotel, tive a impressão de ver um brilho metálico de trilhos semi-enterrados no asfalto. No mesmo instante, pensei estar ouvindo o guincho das rodas de aço do bonde Prado, fazendo a curva da Mostardeiro. Me voltei, assustado, mas era apenas uma caçamba descarregando material de construção.

Voltei apressado à minha vida de adulto, antes que um amigo ou conhecido me surpreendesse naquela esquina, espreitando o passado.

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