Por Carolina Zogbi
Transformar traumas em arte e risada é o dom dos artistas criativos. Que tal fazer sucesso com uma autobiografia (nem tão agradável de ser vivida) em um dos principais teatros de Paris? Muito bom, mas, e adaptar a peça para as telonas, ou melhor, levar o teatro para dentro do cinema? Melhor ainda. E além de ser responsável por tudo isso, interpretar talentosamente os principais papéis e dirigir o filme? Fantástico e inédito. Senhoras e senhores, conheçam Guillaume Gallienne, o responsável pelo divertido e inovador trabalho, que apesar de ser da terra do cinema, conseguiu surpreender.
Traduzido como “Eu, mamãe e os meninos” (Les Garçons et Guillaume à table), o longa foi destaque na premiação do César 2014 (nada menos que vencedor de cinco categorias). A comédia (que pode ser dramática) conta a história de um garoto diferente e inocente, em busca de sua sexualidade, e está em cartaz no festival de cinema francês, que começou quinta e vai até quarta-feira.
Além de toda a consideração técnica do impecável trabalho e a brilhante (dupla) interpretação dos protagonistas, a história do filme é simplesmente genial. É uma grande ironia que o cineasta faz com rótulos e preconceitos que criamos em moldes e colocamos as pessoas para serem adaptadas. A proposta do longa é provar que muita gente não sabe lidar com o que é diferente dos padrões conhecidos, sem tentar enquadrar em algum clichê de referência.
O principal mérito é como ele conta a história, que poderia ser interpretada de inúmeras maneiras e classificada de outras mil, mas esta faz do drama um grande “circo Freudiano”, a paródia do próprio artista, que abriga muitas pessoas em uma só. A trama mostra que a arte até pode imitar a vida, mas quando ela sai dos palcos para sentar à mesa corre o risco ser mal interpretada. Afinal de contas, já estamos acostumados com o roteiro permanente da vida real de seguir sempre o mesmo papel de figurantes no universo.

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