Por J. A. Moraes de Oliveira Em uma tarde preguiçosa de outono, resolvo limpar os armários do escritório, atulhados de velhos livros, revistas e guardados. Começo por jogar fora um livro de folhas amarelecidas. Mas o gesto fica pelo meio ao reconheçer um livrinho de poesias, que comprei ainda adolescente, em um sebo na Rua da Praia.
Me esforço para lembrar que amigos estavam comigo naquele dia.
Só recordo que, pouco tempo depois, botaram abaixo o casarão onde estava a pequena livraria. Era uma velha construção com azulejos portugueses na fachada e tristes janelas de caixilhos azuis.
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Na contra-capa do livro, um Carlos Drummond de Andrade, ainda jovem, me olha com um ar de censura. Abro ao acaso e um verso fustiga meus esquecimentos:
“De tudo fica um pouco… em tudo que tocamos, de tudo fica um pouco.”
Me pergunto o que ficara em mim dos parentes mortos e dos tantos amigos esquecidos. E o que de mim deixara naqueles que não mais encontrei e que nunca mais veria?
Tento afastar os pensamentos que sempre me incomodam quando mexo em papéis e livros esquecidos. Ao abrir outro caixote, alguma coisa no meio da poeira me espera para despertar emoções que já devia ter exorcizado.
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Sob velhas revistas e almanaques, acho um livro de capa rasgada, que ganhei de meu pai quando tinha 13 anos de idade. Caíra de cama com uma doença infantil, impedido de sair para a rua e de fazer os exames no ginásio.
Em certa manhã, acordo e vejo na mesinha ao lado da cama um pacote com papel da Livraria do Globo. Eram os dois volumes de “Moby Dick”.
Eu nunca tivera um livro com uma capa tão bonita como aquela, que mostrava a grande baleia branca em um mar de ondas encarpeladas.
Sentei na cama e mergulhei na leitura.
Durante os dias seguintes naveguei pelo Pacífico, a bordo do baleeiro Pequod. Fechava os olhos e me escondia assustado atrás do mastro principal, quando o endemoninhado capitão Ahab lançava ao vento suas terríveis maldições.
Nas madrugadas altas, quando a febre cedia e eu caía no sono, não era Ahab que me assombrava mas Queequeg, o aborígene que não sabia o que significavam os enigmáticos hieróglifos que cobriam seu corpo inteiro.
Com o passar dos anos, meus heróis e vilões – reais ou inventados – foram lentamente esquecidos, mas as inscrições no corpo de Queequeg ainda voltariam a me perturbar nas noites de tempestades.
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A casa da Vasco da Gama fora demolida, meus parentes próximos já haviam partido e os grandes jacarandás não mais atapetavam a rua com suas flores azuis. E embora tentasse, não conseguia lembrar nenhum dos rótulos dos vidros de remédios que atulhavam aquela cabeceira de meus 13 anos.
Caminho até a praça, que brilha sob o sol da tarde de outono, olho as pessoas, ouço suas vozes e os gritos alegres das crianças. Aos poucos, o mundo presente me recebe de volta.
Mas o enigma daquele inverno ainda me inquieta – qual era a mensagem que se ocultava nas tatuagens de Queequeg?

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