Por J. A. Moraes de Oliveira Um vento quente varreu o campo, o ar ficou pesado com nuvens escuras toldando a luz do sol. Fermino das Dores olhou desconfiado para as nuvens, pressentindo que alguma coisa maleva estava por vir. Em sua vida, ele vira muitos temporais e tormentas de vento, daqueles que derrubavam figueiras de 100 anos e arrastavam ovelhas e cachorros.
Fermino não mais se assustava com vendavais, trovões, raios e outros caprichos do Alto. O que o agoniava eram assombrações que nem o padre Anselmo e sua ciência de vida sabiam explicar.
Como aquilo que havia se passado no enterro do “capitão” Casildo Flores. Fora um acontecimento e tanto, que não lhe saía da cabeça. Naquele dia, para assombro dos crentes de Deus ou não, o cavalo malacara do falecido desembestara e quase derrubara o portão de ferro do cemitério. De susto, até o céu ficou esquisito, ameaçando granizo fora de época.
Desde então, sempre que pensava no causo, ele tirava o chapéu e fazia discretamente o sinal-da-cruz, se justificando que até mesmo o homem mais valente tem seus dias de acorralado.
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Na outra noite, de volta para casa, Fermino tomou a estrada da vila, para ladear o Arroio do Cocho, que transbordava com as últimas chuvaradas. Ao atravessar a vila deserta, sentiu o cavalo inquieto, pronto para negacear. Olhou para os lados, mas não notou nada demais. Mas, como conhecia sua montaria, tirou o revólver do bolso da campera e o ajeitou sobre os pelegos. No final da rua, brilhava uma luz de lampião de querosene. Era a bodega do velho Gonzalo, parador dos castelhanos, que cruzavam a fronteira para beber caña barata.
Passou ao largo, ouvindo o vozerio dos castelhanos e o choro de um bandoneon mal tocado. Os sons o acompanharam por mais de uma légua, até o campo aberto. Guardou então a arma, se lamentando pelo susto à toa. Esporeou o cavalo, colocando distância entre si e aquele lugar.
Os campos estavam um negrume só, sem lua nem estrelas para mostrar o rumo. Fermino segurou o cavalo no freio e ficou imóvel. Ali perto, vindo do lado das várzeas, ouviu o ruido das águas do arroio. Ele estava no caminho certo. Mas havia mais alguma coisa.
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Um som seco na estrada de terra, como cascos sem ferros, talvez um bagual solto ou fugido.
Esperou aquietado, mas não se ouviu mais nada.
Retomou o caminho da fazenda, com os ouvidos atentos e o peito batendo forte.
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Estava quase chegando, quando virou o focinho do cavalo para o lado das coxilhas das Acácias e enveredou lomba acima até o velho cemitério. Atou o cavalo e forçou o portão enferrujado. As dobradiças guincharam, um som que rolou pelo campo escuro e ecoou nos capões ao longe. Precisou gastar todos os fósforos, até achar o que procurava. Sentou em uma pedra perto da sepultura de Casildo Flores e esperou.
***
Um súbito vento norte afastou as nuvens e a lua surgiu de relance. Sua luz pálida clareou as lápides brancas, que pareciam ter se erguido de dentro da terra.
Fermino ouviu alguma coisa subindo o morro, mas não tinha certeza do que era. Quando se levantou para sair, tomou um susto – havia um grande vulto imóvel no portão.
Era o cavalo malacara, que passou por ele como se fosse um fantasma. Fermino se apoiou no muro de pedra e virou para trás. Viu o cavalo no mesmo lugar onde ele estivera há pouco. A sepultura de Casildo Flores.
O tempo não passava e Fermino estremeceu, sentindo um suor frio descer pelo meio das costas. Silenciosamente o cavalo se aproximou, relinchou baixinho e desceu a galope solto a lomba do cemitério.
Foi a última vez que Fermino das Dores viu o malacara.

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