Por Mário Rocha
Era uma vez, há muitos e muitos anos, um lugar cheio de grades e travas e alarmes onde morava uma vovozinha sozinha. Ou, onde morava, sozinha, uma vovozinha, tanto faz. Um dia, pois nem tinha escurecido ainda, o bandidão entrou para roubar, talvez até matar. Mas distraiu-se e só se deu conta que a doce vovó tinha conseguido chegar até uma arma quando ouviu o tiro que para ele foi único. Para a vizinhança e a polícia, que chegaram depois, foi o primeiro de três.
O bandidão só ouviu um tiro porque este foi certeiro e matador. Direto no coração. Assim me contaram. Os outros dois atingiram a perna quando já estava caído e não fizeram muita diferença. Legítima defesa! Foi isso que o pessoal começou a falar e a escrever. Todo mundo muito alvoroçado com a façanha heroica da frágil idosa que conseguiu por fim à vida malvada do bandidão.
Quando raras vozes começaram a falar em inquérito e julgamento e estas coisas todas que os ritos da lei exigem quando alguém morre baleado por alguém – em legítima defesa ou não –, muitas vozes se ergueram, em alto e bom som, para exclamar: “Que barbaridade! Como pode alguém querer condenar a vovozinha indefesa?”. Foi assim que me contaram, mas…
Era uma vez, há muitos e muitos anos, um lugar cheio de grades e travas e alarmes onde morava uma senhora muito idosa. Aí, uma destas tantas pessoas sem emprego nem dinheiro, com passado de pequenos delitos e que caiu nas drogas para disfarçar a angústia de viver uma vida pela metade, um terço, um quinto, um décimo do que poderia e deveria ser uma vida de verdade, aí uma destas pessoas entrou para furtar.
Furtar é tirar algo de alguém, mas sem violência. Mas esta pessoa tinha uma faca na mão e deu de cara com a idosa senhora e disse que ficasse quieta, assim nada lhe aconteceria. Já ia se preparando para fugir quando ela saiu-lhe no encalço. Disparou uma vez e mais duas quando já estava caído. De susto? Ou só para confirmar? Quem pode afirmar com absoluta certeza o que se passou e, portanto, atestar que houve a morte do bandidão ameaçador, futuro assassino; ou que aconteceu um desnecessário justiçamento do ladrão que estava prestes a abandonar o local, deixando incólume a moradora?
Acho que erram tanto os que consideram que ela praticou um ato heroico quanto quem a condenaria por reagir de forma tão drástica, tão mortal. Nem vovozinha indefesa nem atiradora indignada pela invasão de sua morada. Era uma vez, há muitos e muitos e anos, uma idosa senhora que vivia sozinha e acabou vítima de um invasor e da sociedade – a nossa – que não dá educação, saúde e emprego para todos os seus membros e, por isso mesmo, não consegue conter a violência crescente dos excluídos.


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