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Abraços

Por Pedro Macedo Sábado, 17 de setembro, 13h30min. Da mesa de refeições, assisto uma cena bonita, comovente. O filho mais moço, Bruno, 18 anos, …

Por Pedro Macedo

Sábado, 17 de setembro, 13h30min. Da mesa de refeições, assisto uma cena bonita, comovente. O filho mais moço, Bruno, 18 anos, acabara de sair da cama, depois de apenas uma hora de sono. Tinha chegado havia pouco de um show da banda Paradise Prophets, da qual é o guitarrista-solo, realizado em Lagoa Vermelha. O filho mais velho, Vinicius, 20 anos, baterista, ex-integrante de uma outra banda de rock, que ficara em Porto Alegre, encontrou o irmão bem na porta da cozinha pra sala de jantar. O abraço durou quase cinco minutos, durante os quais Bruno relatou o que aconteceu no espetáculo, queixo apoiado no ombro direito do irmão mais velho.

Aquela cena me fez lembrar de uma crônica do Nilson Souza, sem dúvida nenhuma o texto mais sensível deste Estado, em que ele falava do lançamento de um determinado livro. No final do texto, publicado em Zero Hora, o Nilson perguntava: “Você já abraçou seu filho hoje”?

Pois naquele dia eu já tinha abraçado meus filhos várias vezes, muita vezes. Nunca tinha percebido a importância dos abraços familiares. Lá em casa sempre foi assim. A gente se abraça muito, mas foi necessário o talento do Nilson para eu perceber que aquela “abraçação” toda é, na verdade, o alimento de uma relação afetiva. Abraçar é beijar usando os braços.

Vendo meus filhos abraçados e conversando, enquanto a mãe preparava o almoço, comecei a pensar no efeito desse tipo de contato sobre as pessoas e sobre os relacionamentos em geral. Imagino quantas crianças, nos meus tempos de guri, joelhos e cotovelos arranhados depois de um tombo de bicicleta, tinham que ouvir “isso não é nada, vai passar logo”. Mentira. Não passava logo e ardia muito. Nesses casos, criança só quer uma coisa – um abraço. Só isso. Ela não quer ouvir conselhos sábios sobre o futuro imediato daqueles arranhões ardidos ou sobre a capacidade de recuperação do corpo humano. Ela só quer a solidariedade familiar com a sua dor. Nada mais. O abraço ali funciona melhor do que bandaid e nebacetin juntos.

Seres humanos adultos também se comunicam, se apóiam e se amam através dos abraços. Não apenas os pequenos, mas também os grandes precisam de abraço. Abraço é bom pra tudo e a qualquer momento; na despedida e na chegada; abraço é bom pra acabar com briga; abraço apertado, então, nem se fala…

Mais tarde, ainda pensando nos meus filhos, lembrei que eles agem assim também com os amigos. Na condição de motorista eventual da Paradise Prophets, a melhor banda cover do Guns do Rio Grande do Sul (talvez do Brasil, se me permitem a imodéstia), assisti muitos encontros dos guris com os amigos antes dos espetáculos; encontros e despedidas regados a abraços apertados, afetuosos. Abraços agora corriqueiros entre os integrantes da banda e o imenso grupo de amigos e amigas que gravita em torno dela.

Nem mesmo o rock, com sua história e importância, prescinde de um bom abraço.

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