Por Flávio Tavares
Dizia Proudhon que sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, o governo impõe ao povo ser submetido à contribuição, utilizado, explorado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado. E depois, à menor resistência ou queixa, é o povo reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, ridicularizado, ultrajado e desonrado.
Proudhon foi o mestre e teórico do anarquismo, da rejeição à autoridade suprema e, como tal, era arrasador no século 19. Hoje, sua palavra soa exagerada. Outros são os tempos e, agora, os que nos governam contentam-se em ordenar campanhas de publicidade. E, assim, nos maltratam, nos enganam ou nos ultrajam dando-nos a sensação de que nos abraçam.
Ou não foi assim na reunião do presidente da República com seus 37 ministros, dias atrás?
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Convocada para analisar a crise econômico-financeira que brota mundo afora, nenhuma ação concreta foi sequer aventada na reunião para contrapor-se ao temporal. Um jornal do Rio resumiu tudo num título curto: “No ministério de Lula, a receita é propaganda”.
O presidente convocou seu milípide ministério (há mais ministros do que Estados) para “unificar o discurso de otimismo” a transmitir à sociedade em meio à crise. Sem analisar nenhuma medida que incida na economia e na produção, a fórmula mágica foi apresentada como num baile de debutantes: a partir de 10 de dezembro, a propaganda governamental inundará os meios de comunicação para dizer que vivemos no melhor dos mundos.
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Onde se inspiram para nos iluminar com tão patriótico otimismo? No Dr. Pangloss, de Voltaire, que, a cada nova tragédia, sentia-se mais feliz? Nas ruminações do Dr. Goebbels, que construiu o nazismo pregando que uma mentira repetida cem vezes vira verdade absoluta? Ou na propaganda açucarada da ditadura, naquele “Pra frente, Brasil” dos tempos do general Médici?
Seja qual for a fonte, tudo será grotesca ilusão se a verborragia tola das frases de encomenda soterrar a realidade. Sim, pois até aqui, a única ação concreta “contra a crise” foi isentar o imposto de operações financeiras (IOF) na venda de motocicletas! Querem estimular a produtiva profissão de “motoboy”, ainda que motocicleta polua três vezes mais do que carro?
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A tragédia de Santa Catarina já eclodira quando o presidente reuniu seus ministros, mas ninguém piou. Dias depois, de blusão com o escudo da República, Lula da Silva sobrevoou as zonas inundadas. Discursou tristonho e anunciou ajuda, “verbas extras”, como se o desastre fosse questão de finanças.
Nenhuma análise das causas que levaram ao horror que já caminha para uma centena de mortos! As enchentes são comuns no Vale do Itajaí e a tragédia está, agora, na aluvião dos morros desmoronando-se sobre residências, isolando comunidades e matando sob o lodo. Mas não surgiu ao acaso e é fruto direto do maltrato à natureza. Da visão caolha e suicida de remover e revirar o solo e o subsolo para servir à especulação imobiliária e à demagogia política, na aparente ilusão de “modernidade”.
Cada encosta de morro escavada reage num prazo determinado e cobra caro pela ferida que lhe fazemos. As capas geológicas são um tecido, têm pele e entranhas. Por que não tentar uma ação articulada (que sirva ao país todo) dos ministérios das Cidades, Transportes, Meio Ambiente, ou até do tal ministérrrio das Ações Futurras, do ministrro Mangabeirra Ungerrr, que propôs levar água da Amazônia ao Nordeste?
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Cortar um morro não é cortar um bolo. Até a fatia mal cortada dos imensos bolos de casamento se desmorona. Estimulamos a tumefação da natureza e, logo, vamos ao discurso, como se isso fosse agir.

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