Por Antonio Oliveira O jornalismo praticado no Rio Grande do Sul era, em décadas passadas, um dos orgulhos dos gaúchos. Uma escola ética, que serviu como exemplo para o Brasil. Em todos os projetos que surgiam no Rio de Janeiro e em São Paulo, lá estava um gaúcho comandando ou como um dos seus principais articuladores. E hoje há profissionais formados aqui espalhados pelo País.
Criativos e inovadores, foram responsáveis pelo aperfeiçoamento do jornalismo impresso e também em rádio e televisão. Em plena ditadura militar, inventaram a primeira Cooperativa dos Jornalistas (Coojornal), que acabou tornando-se um dos veículos mais importantes daquele período. Alguns dos seus dirigentes chegaram a pagar com prisão e perdas de patrimônios pessoais pela ousadia do enfrentamento.
Eram outros tempos. Uma matéria só virava manchete, principalmente em caso de graves denúncias, se o repórter vinha para a redação trazendo provas materiais daquilo que era denunciado pelo entrevistado. Lembro até de um episódio em que pedi a um repórter que só divulgasse pela Rádio Gaúcha um caso de desfalque no Banco da Amazônia depois que tivesse consigo uma cópia da ocorrência registrada na Delegacia de Defraudações.
Era um tempo em que jornalista não tinha idade. Quanto mais velho, melhor, até se dizia. Hoje, as empresas torcem o nariz para quem passa dos 35 anos. Estas inovações certamente levaram a uma certa perda de memória deste passado brilhante.
Outro dia, conversando com uma estagiária, por falta de melhor assunto acabei lembrando a ela que lá na faculdade onde ela estudava trabalhava um amigo meu (citei-lhe o nome), que seria o chefe da comunicação social. E ela não vacilou: “Realmente, lá tem um dino (dinossauro) com este nome”.
E assim, os dinossauros foram afastados e levaram com eles a memória das redações. Talvez seja por isso que algumas marcas da profissão foram engolidas pelo tempo. Em rádio, por exemplo, locutor de notícia ou apresentador de programas de entrevistas não lia mensagem comercial. Havia um locutor de voz diferenciada que lia as mensagens comerciais. Jornalista sabia que não podia invadir uma área/função que era só de radialista.
O Sala de Redação da Rádio Gaúcha chegou e começou a acabar com estas manias. E era com prazer inovador que Cândido Norberto lia, por exemplo, o comercial do “uísque da garrafa vazia´´. Meus ouvidos nunca esqueceram a dificuldade com que Ruy Carlos Osttermann leu seus primeiros reclames no Sala. Batia no ouvido da gente que ele não nascera para aquilo. Seu constrangimento passeava pelas ondas da Rádio Gaúcha. Com o tempo até acostumou. E temos vários outros exemplos.
A mais nova invenção gaúcha é o “jornalismo blindado´´, que fecha microfones e computadores nas redações para qualquer notícia contra o governo estadual. O último exemplo foi a divulgação de uma pesquisa que colocava o governador gaúcho em penúltimo lugar. Só um jornal publicou. Mas todos destacaram em manchetes que Lula havia caído três ou quatro pontos na mesma pesquisa. É dose.
Confesso que escrevi estas linhas depois de ler uma frase de Políbio Braga: “Isso aqui é um atraso de vida. O jornalismo daqui chegou aos últimos degraus de importância e credibilidade“.
E também depois de ouvir uma rádio que apresenta uma programação nacional. É que depois de um excelente trabalho de jornalismo de Carlos Nascimento, entram dois apresentadores na programação local, que, em vez de fazer jornalismo, ficam um elogiando ao outro e lendo emails de amigas e amigos que passam elogios aos seus sites e suas vozes. Um horror.
Por mais incrível que pareça, nesta Políbio tem razão.

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