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Além do release: gerar conhecimento é o novo desafio da comunicação pública

De Fabio Berti, para Coletiva.net

Em tempos de disputa permanente pela atenção do público, produzir e divulgar conteúdos representa apenas uma das etapas do processo de comunicação institucional. Informar com clareza, e agilidade continua sendo essencial, mas já não é suficiente. As instituições públicas também precisam refletir sobre as próprias práticas e transformar experiências profissionais em conhecimento capaz de contribuir para uma melhor interlocução com seus públicos.

A lógica é relativamente simples: uma prática que não é debatida e documentada tende a permanecer restrita aos limites da organização que a desenvolveu. Pode gerar bons resultados, solucionar problemas e até promover mudanças importantes, mas dificilmente servirá de referência para outras instituições se os caminhos percorridos não forem compartilhados.

Essa reflexão ganha força diante da aprovação de um artigo científico e de dois estudos de caso do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) para apresentação no 4º Congresso Brasileiro de Comunicação Pública, o ComPública 2026. Os trabalhos tratam dos projetos Influencers do TJRS e Justiça Multimídia, desenvolvidos pela Direção de Comunicação Social, e apresentam experiências relacionadas à transparência e ao relacionamento com os públicos internos, com os diferentes integrantes do Sistema de Justiça e com a sociedade.

Não se trata, entretanto, de uma iniciativa isolada. Em 2025, o TJRS já havia apresentado no mesmo congresso o artigo “Comunicação 360 graus: reflexos da estratégia de integração no TJRS”. Outros dois artigos científicos, relacionados aos projetos Comunicação 360 graus e Redação Conectada, já foram premiados no Congresso Brasileiro de Comunicação do Sistema de Justiça, o Conbrascom.

Evidentemente, premiações e aprovações em eventos especializados representam formas relevantes de reconhecimento institucional. O significado dessas conquistas, porém, vai além da visibilidade obtida pelos projetos ou pelas equipes envolvidas. Elas revelam a disposição de transformar a prática cotidiana da comunicação em objeto de análise e produção de conhecimento.

Esse deveria ser um objetivo cada vez mais presente nas organizações públicas. Quando uma instituição compreende como determinada estratégia funciona, mede seus resultados, sistematiza sua metodologia e compartilha as conclusões com outros profissionais, ela permite que uma experiência adquira dimensão coletiva. As boas práticas deixam de pertencer exclusivamente à organização que as criou e passam a integrar um repertório comum, capaz de inspirar e aperfeiçoar outras iniciativas.

Para não perder o hábito acadêmico de teorizar, vale recordar que o professor Jorge Duarte associa a comunicação pública ao interesse público e ao fortalecimento da cidadania. Quando uma instituição analisa criticamente as próprias ações e divide suas descobertas com a comunidade profissional, amplia esse compromisso. O conhecimento produzido deixa de beneficiar somente a organização e passa a colaborar com o amadurecimento de todo o campo da comunicação pública.

Essa postura diferencia as instituições que apenas comunicam suas atividades daquelas que também contribuem para construir o futuro da própria área. Divulgar ações e atender às demandas da imprensa e da sociedade são atribuições fundamentais. Entretanto, refletir sobre os processos, identificar acertos e limitações e colocar essas experiências em circulação representa um passo adiante na qualificação da comunicação institucional.

A lógica é semelhante àquela que orienta a inovação no setor público. Não há inovação consistente sem a circulação do conhecimento. É necessário criar ambientes nos quais as práticas possam ser examinadas, comparadas, aperfeiçoadas e adaptadas a diferentes realidades. Nesse contexto, pesquisas e estudos de caso deixam de ser atividades acessórias e passam a integrar o próprio processo de modernização das instituições.

No caso do TJRS, os trabalhos aprovados tratam de frentes diretamente relacionadas aos desafios contemporâneos da comunicação pública. Mais importante do que os resultados alcançados por cada iniciativa, contudo, é a decisão de transformar essas experiências em reflexão acadêmica e profissional. Documentar processos, medir impactos, submeter conclusões à avaliação de pares e apresentá-las em eventos nacionais demonstra uma compreensão mais ampla sobre a responsabilidade das áreas de comunicação.

Ao compartilhar o que aprendeu, uma instituição também reconhece que o conhecimento não deve permanecer isolado. Ele precisa circular, ser questionado e servir de base para novas práticas. É justamente essa troca qualificada que amplia a capacidade do setor público de se comunicar de forma mais eficiente com a sociedade.

Esse movimento está alinhado às recomendações da própria ABC Pública, que destaca a importância da formação continuada, da qualificação técnica e da aproximação entre as instituições públicas e os ambientes acadêmicos. Não basta acompanhar as transformações da comunicação social. É necessário participar ativamente da construção de novos referenciais para o campo.

Fazer comunicação pública é um desafio imenso. Transformar essa prática em conhecimento representa uma responsabilidade ainda maior. Talvez esteja justamente aí um dos principais legados de congressos como o ComPública: criar espaços para que experiências institucionais deixem de ser apenas realizações internas e se tornem patrimônio coletivo da comunicação pública brasileira.

Fabio Berti é jornalista, professor e diretor de Marketing e Comunicação Digital do TJRS.

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