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Ana Dos Gatos

Por J. A. Moraes de Oliveira Quando entrou no pequeno apartamento de fundos em Copacabana, que tinha as cortinas permanentemente fechadas, foi recebido por …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Quando entrou no pequeno apartamento de fundos em Copacabana, que tinha as cortinas permanentemente fechadas, foi recebido por uma multidão de gatos que dormiam nas almofadas, sobre o sofá ou se espreguiçavam debaixo da mesa. Ele fora procurar Dona Ana dos Gatos depois de muita insistência de seus amigos, que juravam se tratar de uma clarividente fora do comum, capaz de antever o futuro.

Sentou-se e foi logo perguntando à estranha personagem se poderia fazer anotações, mas ela não respondeu, mostrando um sorriso irônico e cansado, que devia ser reservado para os incrédulos que passavam por aquela cadeira.

Vagarosamente, ela embaralhou as cartas de Tarot e as distribuiu sobre a mesa. Depois de examinar as cartas, tomou com delicadeza a palma de suas mãos. Ficou em silêncio e, fitando-o de perto, com olhos marcados por fundas olheiras negras, começou a falar.

Sua voz era muita baixa, quase inaudível e ele não conseguia entender suas palavras. Ela relacionava fatos e pessoas, sem ordem cronológica nem geográfica. Parecia estar estranhamente familiarizada com seu passado, como se sua vida estivesse desenhada nas cartas espalhadas na mesa.

Sentiu as palmas das mãos ficarem úmidas, quando ouviu que deveria ter extremo cuidado com armas brancas. Perguntou-se como ela poderia saber que, desde criança, ele se havia cortado com qualquer lâmina que tocasse, desde facas, navalhas e até um simples canivete?

Teria ela notado as pequenas cicatrizes nos dedos e nas costas da mão?

Mas eram todas cicatrizes antigas, imperceptíveis na penumbra da sala.

Sentiu-se ainda mais incomodado quanto a vidente passou a tratar de seu futuro. Aproximou-se, mas a voz era quase um murmúrio, e quando pediu para repetir, não foi ouvido. Ela passava de um assunto para outro sem nenhuma pausa, como se estivesse descrevendo capítulos de livro.

Mas, quando ela afirmou que ele passaria muito tempo longe de casa, viajando para países distantes, ele segurou a respiração e voltou a sentir o suor frio porejando nas mãos.

Justamente naquela semana, ele e todos os seus colegas na agência de propaganda aguardavam com ansiedade a decisão de um novo cliente – uma grande linha aérea internacional.

Subitamente, a vidente parou de falar, olhando ao redor, como se saísse de um sono profundo. Levantou-se e anunciou que a visita havia terminado. O sorriso cansado voltou e suas olheiras estavam ainda mais marcadas, como se a visão de futuros acontecimentos drenasse as suas energias.

Ele deixou o pequeno apartamento, sentindo o coração batendo forte e as mãos ainda molhadas. Sentou-se em um banco na orla da praia e tentou registrar no bloco de notas seu futuro, segundo Dona Ana dos Gatos.

Conseguira lembrar apenas alguns fragmentos, mas que eram suficientes para deixá-lo perturbado. Ela havia descrito episódios de sua vida passada com tanta clareza, que fazia as previsões de futuro tão reais como o momento que estava vivendo. Eram como se fossem cenas de um filme, com personagens que conhecia, vivendo fatos que ainda não haviam acontecido.

Durante os próximos dias, sentia que algumas situações de seu cotidiano pareciam ter saído do bloco de anotações. Porém, preferiu acreditar que não passavam de meras coincidências.

Mas, quando o diretor da agência reuniu os funcionários para comunicar que haviam conquistado a conta da empresa aérea, seu coração bateu forte.

Logo a seguir, ele seria escolhido para atender a conta, devendo viajar dois dias depois para uma reunião no exterior.

Todos começaram a comemorar enquanto ele, atordoado, escapou para a rua, procurou um táxi e voltou ao endereço em Copacabana. Mas Dona

Ana dos Gatos já não morava mais lá. Havia se mudado na véspera para uma distante cidade do interior do País e ninguém sabia o seu novo endereço.

Durante os três anos seguintes, ele viveu mais tempo em aviões do que em casa, visitando cidades que nunca imaginara conhecer. E agora adotava extremos cuidados sempre que usava uma faca de mesa ou um canivete.

De passagem por uma cidade longínqua e desconhecida, jogou o pequeno bloco de anotações em um cesto de lixo.

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