Por Antonio Oliveira
Conheci o Adeli Sell quando ainda era estudante universitário. Entre um grupo de alunos da Ufrgs que insuflava uma grande greve de trabalhadores da construção civil. Enlouquecidos, eles andavam pela cidade, acelerados por garrafas de plástico cheias de um líquido branco do qual davam profundos goles. Os trabalhadores invadiam todas as construções que viam pela frente onde companheiros não tinham, ainda, aderido à paralisação.
Com um megafone, os estudantes convocavam todos à greve e pediam a mobilização e a solidariedade da população em apoio ao movimento, que era justo. No primeiro dia houve grande confusão na cidade, com os arrastões de trabalhadores interrompendo avenidas, atrapalhando a circulação de veículos e alguns choques entre grevistas e outros que não queriam parar.
Isto aconteceu há quase 40 anos, creio. E é desde lá que vejo o Adeli sempre envolvido com a cidade e todos os seus problemas, desde o buraco de rua até o seu macro planejamento. Os prejuízos que a cidade sofre, ferem também ao Adeli. Sempre brinquei que não votava nele porque já estava eleito e levava o meu voto para outros candidatos, sempre novos, com a ideia de que toda a renovação é bem vinda.
Mas nunca concordei que esta regra fosse aplicada ao Adeli. Porque ele encarna um tipo de político que é necessário para uma faixa da população que está permanentemente desassistida, indefesa. Como aqueles pedreiros e auxiliares da construção civil lá de décadas atrás, que saíram às ruas porque o seu Sindicato era absolutamente pelego e tinha medo de enfrentar a ditadura e os patrões do setor.
A greve acabou sendo assumida pela Intersindical, que levou aquelas centenas de trabalhadores, já de noite, para uma assembleia no Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Vestuário, na Pinto Bandeira (é isto ?), então presidido pelo João Paulo Marques. Lá, foi eleita uma Comissão de Greve para encaminhar as reivindicações da categoria aos patrões (eles não sabiam nem qual percentual de aumento iriam pedir), as quais eu tive a honra de redigir, acompanhado também por Olívio Dutra, então presidente do Sindicato dos Bancários, e outros presidentes de entidades sindicais, que não cito para evitar esquecimentos, o que seria imperdoável. Na sequência, promovemos uma assembleia no Estádio dos Eucaliptos e fizemos a direção pelega e medrosa do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil assumir a greve.
Como não deixamos os estudantes entrar no sindicato, eles, Adeli à frente, ficaram defronte ao prédio com seu megafone, gritando “pelego!!! pelego!!! pelego!!!” para os sindicalistas que estavam lá dentro. Demos boas risadas na última vez em que relembramos este episódio.
Tenho certeza que Adeli não foi reeleito porque em vez de trabalhar para a sua candidatura estava envolvido com as coisas do partido e de outras candidaturas. Ele é assim e não vai mudar, claro. É um tipo de político que está cada vez mais raro no universo dos nossos partidos.
Mas é necessário para a população. Ainda bem que, como ele já disse, não vai parar. Vamos em frente, Adeli.

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