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Apertem os cintos, a autoridade sumiu

Por Eliziário Goulart Rocha O presidente Lula conseguiu provocar o que nem o impeachment de Collor, as trapalhadas de Itamar, sua própria eleição e …

Por Eliziário Goulart Rocha

O presidente Lula conseguiu provocar o que nem o impeachment de Collor, as trapalhadas de Itamar, sua própria eleição e a roubalheira recente haviam logrado conseguir: a inquietação dos quartéis. Ressuscitou uma expressão que desde o final do regime militar só era utilizada para definir a excitação de recrutas em véspera de licença. Decidido a falar grosso para encobrir a tibieza de suas ações, o Planalto acabou por causar em terra os estragos já consolidados nos céus. Ao desautorizar o comando militar dos controladores de vôo, contrariou uma premissa conhecida por qualquer escoteiro lobinho: sem hierarquia, perde-se o controle sobre as tropas.

Como nunca antes na história deste país, utilizando-se a frase preferida do presidente, viajar virou sinônimo de via crucis. Os alagamentos da pista de Congonhas, as tempestades tropicais ou o overbooking da TAM são fatores circunstanciais. Qualquer brasileiro com idade para assistir aos telejornais sabe que a confusão começou quando a competência dos controladores foi questionada em função do acidente com o avião da Gol, em outubro do ano passado. De lá para cá, computadores começaram a sair do ar, sistemas de reserva a falhar junto com o principal, radares a sofrer apagão. Como meninos amuados com a recusa da mãe em lhes deixar quebrar os móveis da sala, decidiram atirar logo um vaso na tela da TV.

As queixas possivelmente são justas. O número de profissionais deve ser mesmo insuficiente, os salários podem estar aquém das exigências e a rotina de caserna talvez não faça sentido, mas a solução não pode passar pela baderna pura e simples, capaz de transformar um país em refém. Os poucos defensores do motim por certo se revelariam bem menos tolerantes se os funcionários de sua empresa resolvessem que patrão não precisa ser obedecido, ou se os filhos se reunissem para mostrar quem de fato manda em casa.

A crise cresceu em meio à hibernação do brasileiro, que costumava acabar só depois do Carnaval. Não na quarta-feira de cinzas, que ninguém é de ferro, nem na quinta, que nos trópicos é quase sexta, que a bem dizer é fim de semana, mas na segunda seguinte. Lula estendeu as férias coletivas até abril, decerto inspirado no calendário da Globo. Se o Big Brother ainda estava no ar, o Jô continuava com as reprises, e a Grande Família, a Diarista e os Cassetas ainda não haviam retornado à grade de programação, por que o governo deveria anunciar ao Brasil que estava de volta ao trabalho?

Enquanto se empavonava de ser recebido em Camp David, Lula imaginou que teria de maneira remota o poder que não costuma exibir ao vivo. Restabelecida a hierarquia e desmoralizado o governo, resta saber os meninos contrariados vão se comportar diante da ameaça de ficar de castigo e ter a mesada suspensa.

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