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Apesar do mercado

Por Fernanda Bastos, para o Coletiva.net

“Um profissional de Comunicação negro é igual a um profissional de Comunicação branco”. Você já deve ter ouvido ou repetido essa sentença, e posso garantir que ela é verdadeira, caso você acredite que o racismo é uma ficção e que todos os profissionais são iguais, sem especificidades. De fato, como muitas de nós negras e não-negras, encontrei na Comunicação meu ofício, mas nem sempre a Comunicação encontrou em mim uma profissional como as outras.

Ouvi várias vezes, como muitas de nós, que grandes empresas estavam atrás de uma profissional com o meu perfil para responder aos apelos por diversidade. Procuravam uma. Somente uma. Isso pressupõe aguçar ainda mais disputas que, no meio audiovisual, já costumam ser acirradas. Ouvi, também, que deveria dar um jeito no cabelo se quisesse continuar no ar. Também tive de mostrar mais o meu crachá do que as colegas não-negras quando cobria espaços de poder, para garantir que era jornalista. Um importante político do estado, conhecido por suas tiradas racistas, concedeu uma entrevista inteira a mim sem me olhar nos olhos. Nunca frequentei qualquer redação ou ambiente de trabalho em que não tivesse de levantar a voz contra as desigualdades raciais, os preconceitos e as ideias rasas. Mas não foi isso que me fez profissional atrativa para o mercado de trabalho. Essas foram algumas das especificidades que me constituíram jornalista, apesar do racismo. E aqui eu falo para estudantes e focas negros: é preciso ser profissional da comunicação, a despeito do racismo. Isso não significa qualquer acomodação, e muito menos falta de engajamento com a mudança do estado das coisas. Isso significa somente que é preciso ter ciência de que seremos mais cobrados por sermos negros e que muitas vezes seremos os únicos interessados a abordar os problemas que o racismo causa em nosso ambiente de trabalho.

Ao longo da minha trajetória percebi como era importante estar pronta para os desafios antes de ser convocada por eles. No tradicional Jornal do Comércio, tive acesso às lições introdutórias com grandes profissionais como Guilherme Kolling e João Egydio Gamboa. Especialista em texto e motivação de reportagem, Kolling mostrou-se sempre generoso com a estagiária que fui e com a profissional que me tornei. Foi ele quem me deu a primeira oportunidade de emprego depois de formada. O saudoso Gamboa sempre alertava para os riscos do que hoje chamamos de etarismo, pela importância de sua experiência e visão larga do mundo. Devemos respeitar e lutar pela permanência de profissionais mais velhos nas redações não só porque melhoram o trabalho de nossas equipes, mas porque em poucos anos poderemos ser nós, justamente no auge de nossas lutas, as vítimas de uma sociedade obcecada pela juventude.

Graças a um concurso público com cotas para pessoas negras pude exercer meu ofício em duas emissoras públicas, a FM Cultura e a TVE. Portanto, sou fruto das políticas de combate às desigualdades raciais idealizadas e executadas por lideranças do movimento negro, que nesse ano comemora o cinquentenário da criação do 20 de novembro como data de celebração da cultura afro-gaúcha.

A jornalista Nara Sarmento, a quem também sou grata, conduziu minha passagem da edição de jornalismo na FM Cultura para o vídeo na TVE. Na comunicação pública trabalhei pela primeira vez com a imprensa negra, graças a uma oportunidade da saudosa jornalista Vera Cardozo, referência absoluta na área. Se hoje, em plena pandemia, atuo como apresentadora do ‘Redação TVE’ é porque conto com uma direção comprometida, uma grande equipe técnica que me apoia e com muitos colegas que acreditam que o meu rosto e a minha voz também podem representar a cultura desse estado, que é nossa maior fonte de informação. Cardozo foi a primeira que acreditou nessa quebra de paradigma, lutando muito para que profissionais como eu fossem respeitadas.

É claro que a Comunicação muda a todo tempo, mas um aprendizado que tive com os grandes profissionais que conheci é que precisamos construir espaços de existência para os nossos projetos. Por isso, em 2018, junto com o crítico literário e meu marido Luiz Maurício Azevedo, idealizei a editora Figura de Linguagem, uma casa independente e negra sediada em Porto Alegre. A iniciativa é um espaço que acolhe a minha especificidade de editora negra e apaixonada por livros, algo que acrescenta evidente conteúdo à minha carreira de jornalista, mas que faço por gosto.

Sei das barreiras que são impostas aos negros no mercado do ensino de Comunicação – basta olhar para o corpo docente das universidades públicas e privadas – mesmo assim, em uma jornada tripla de trabalho e estudo, concluí o mestrado em Comunicação na UFRGS, em 2020, onde aprofundei meus estudos e minha prática, aproveitando os singulares conhecimentos da professora Maria Helena Weber e de seu grupo de pesquisa Nucop (Núcleo de Comunicação Pública e Política).

Em 2021 ingressei em um espaço de ensino modelar, a plataforma Feminismos Plurais, uma iniciativa aquilombada, na qual tenho a possibilidade de juntar diversos campos que me mobilizam: ensino, comunicação e antirracismo. Nesse ambiente de trocas com grandes professores, capitaneado pela brilhante filósofa Djamila Ribeiro, venho trabalhando na concepção, direção e apresentação do podcast ‘Onda Negra’, que oferece conteúdo educacional gratuito. A cada quinzena trazemos nuances da intelectualidade negra, em temas como epistemicídio, transfeminismo e intolerância religiosa.

Hoje, portanto, sou uma profissional transmídia. O mercado talvez não quisesse que eu ocupasse esses espaços, mas estou agarrada a eles, exercendo uma dedicação profunda à prática jornalística e ciente de que são essenciais as oportunidades oferecidas por aliados que me ajudam a construir condições para que eu possa ser jornalista apesar do racismo.

Fernanda Bastos é mestra em Comunicação pela Ufrgs, atuante na TVE RS e na plataforma Feminismos Plurais, onde apresenta o podcast ‘Onda Negra’.

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