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Aromas de Outono

Por J. A. Moraes de Oliveira No outro dia, garimpando objetos antigos em um pequeno antiquário do Interior, ele descobriu uma máquina de escrever, …

Por J. A. Moraes de Oliveira

No outro dia, garimpando objetos antigos em um pequeno antiquário do Interior, ele descobriu uma máquina de escrever, exatamente igual à que se usava nos anos 60 nas redações dos jornais de Porto Alegre.

Reteve-se por algum tempo, admirando a velha Underwood negra com seu logotipo dourado. Tocou de leve as teclas gastas até ouvir o toque característico da campainha, quando o carro da máquina atingiu o final da linha.

O som metálico acordou imagens de antigos companheiros de salas de redação que não existiam mais.

***

Ele era jovem e recém-formado, convivendo com veteranos jornalistas incluindo um ou outro escritor, todos dedicados ao ofício de produzir sua quota diária de laudas de texto.

E, de tempos em tempos, uma olhada rápida para o moderno relógio elétrico na parede, gentileza da Casa Masson.

As matérias deviam estar na mesa do onipresente secretário de redação até as 6 horas da tarde. E não havia tolerância nem para a pequena nota sobre uma festa de debutantes, nem para a visita de um importante líder político nacional.

Para ele e outros repórteres de setor, a rotina começava à primeira hora da tarde. Debruçados nos telefones de disco, alguns tentavam arrancar uma notícia de suas fontes habituais. Quando isto não funcionava, o jeito era ir para a rua bater pernas, atrás de assuntos capazes de encher pelo menos duas ou três laudas de um assunto qualquer.

Ao final da tarde, a agitação dos repórteres que traziam as notícias locais contrastava com a tranqüilidade dos redatores do noticiário internacional. Eles fumavam um cigarro atrás do outro, aguardando pacientemente os telegramas das agências UP e AP, que poderiam fazer a manchete do dia ou mudar a paginação que já estava montada nas oficinas.

***

Ele procurava entregar sua matéria antes das 5 horas, gastando tempo na redação, na expectativa de que faltasse texto para fechar a página de espetáculos.

Quando isto acontecia, o secretário lhe pedia um comentário sobre um dos filmes em cartaz na cidade. Esperava alguns minutos antes de entregar a crônica, que já estava pronta; quase sempre era o filme da avant-premiére do sábado ou um clássico exibido no Clube de Cinema.

Com alguma sorte, seu comentário era promovido para o alto da página, o que rendia uma secreta gratificação de ver sua coluna assinada ser fundida em chumbo e montada nas bancadas forradas de metal na oficina.

Bem cedo perceberia que aquelas pequenas satisfações eram meras ilusões de iniciante. Nenhum dos calejados veteranos se dava ao trabalho de esperar o jornal rodar e não pareciam se emocionar nem um pouco ao verem seus textos na primeira página.

***

Ao voltar à cidade, muitos anos depois, ele já havia esquecido o nome daqueles antigos companheiros. Ao cruzar com eles no restaurante ou nas calçadas da Praça da Alfândega, sentia-se desconfortável, com dificuldades em manter uma conversação mais prolongada.

Percebia que os antigos colegas não preservavam a mesma carga de saudades dos tempos em que faziam jornal. Alguns haviam sido bons amigos, com tantas coisas em comum, mas o tempo e a distância modificaram a todos de uma forma irreparável.

Eram agora completos desconhecidos.

Logo entendeu que o exercício de voltar o calendário e compartilhar lembranças comuns ficava pesado, quase doloroso. Assim, na maior parte das vezes, desistia de ir além do diálogo educado e protocolar:

” – Bons tempos aqueles.”

Ou então o levemente nostálgico:

” – Nós éramos felizes e não sabíamos…”

Os tempos eram definitivamente outros – gente jovem em salas envidraçadas, organizadas, impessoais. Havia chegado a era da impressão a frio e as campainhas das Underwood há muito haviam sido substituídas pelos eficientes e silenciosos terminais de computador.

Nada que lembrasse as velhas redações nem seu cândido idealismo de iniciante.

***

Dias depois, um lento caminhão bloqueou seu caminho na estrada banhada pela luz de outono. Enquanto aguardava a vez de ultrapassar, o vento soltou a lona do caminhão, descobrindo uma parte da carga.

A estrada já permitia a ultrapassagem, mas reduziu a velocidade. Havia visto algo familiar no interior do caminhão. Quando a lona se abriu de todo, mostrou uma carga de velhas linotipos, iguais àquelas que fundiram os textos de sua juventude.

Por aquelas máquinas passaram notícias de vida e de morte e manchetes que mudaram a face do século XX. Agora, inúteis e esquecidas, estavam a caminho de algum ferro-velho.

Ele acelerou e seguiu em frente, retomando seu caminho. Estaria sonhando acordado, ou no ar de outono havia um cheiro de tinta e de chumbo derretido?

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