Por Rafael Bordin Schuch
Um dos prazeres intelectuais e estéticos além da leitura, teatro e cinema, é a apreciação de uma bela pintura. Para muitos, é um tipo de expressão de longo alcance, profunda, talvez abstrata, mas inegavelmente estimulante para o intelecto. É indispensável a qualquer curioso que queira iniciar e obter algum entendimento, por mais ínfimo que seja, desta arte criada através dos pincéis, conhecer alguns dos seus grandes nomes, pelo simples motivo de que estudando o artista se estuda não somente a sua obra, mas também a época vivida, que reflete em grande parte a criação de qualquer grande obra. Como representante desta forma de expressão dos sentimentos e contradições humanas temos Goya, um de seus expoentes.
Francisco José de Goya y Lucientes foi um dos maiores pintores de todos os tempos e, ao lado do holandês Rembrandt, inventou o chamado realismo, pois antes destes dois senhores, grandes pintores como os renascentistas italianos Michelangelo e Rafael, além de um famoso contemporâneo de Goya chamado Diego Velázquez, artista do período barroco, estilizavam e engrandeciam os seus modelos, o que alterava a realidade do ambiente que retratavam. Goya desceu à terra violentamente. Soube expressar o drama da guerra, por exemplo, através do quadro “Três de Maio de 1808 em Madrid”, desenho que mostra um grupo de revoltosos espanhóis sendo fuzilados por soldados do exército francês a mando do marechal Murat, pois os sublevados queriam evitar a saída da Espanha, ordenada pelos franceses, do infante D. Francisco de Paula de Bourbon, representante da família real espanhola por ser filho do rei na época, Carlos IV.
Muitos acham que um pintor genial como Goya tem cara de museu, mas Bob Dylan disse que quadros assim deveriam ser expostos em postos de gasolina e praças para que o povo pudesse conhecer a história da humanidade não somente pela televisão ou pela internet, mas também pelas cores que representaram a dramaticidade do momento em que Napoleão levava as bandeiras da Revolução Francesa até a Península Ibérica e controlava a Europa. Os quadros deste espanhol dispensam palavras, quem gostar ou entender não precisa de mais nada, entretanto aquele que não conseguir compreender o que lhe é mostrado desista de olhar a pintura. Depois dele e também de Rembrandt, representante do século de ouro holandês, a pintura passou a ser uma atividade profundamente humana e comovente.
Outro quadro de Goya interessantíssimo de ser apreciado é o famoso “Saturno devorando a um filho”, mostrado no filme “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme”, quando o financista Bretton James (Josh Brolin) vai apresentar uma proposta de emprego ao protagonista funcionário Jacob Moore ( Shia LaBeouf). Na cena, James, ao falar sobre o quadro, afirma ser um individualista inseguro e egoísta por ter grandiosa peça em seu escritório e não dividi-la com nenhum outro par de olhos.
Um filme que ilustra bem a vida de Goya é o do diretor Milos Forman “Os Fantasmas de Goya”, com Stellan Skarsgard interpretando Goya, Natalie Portman sendo Inês e Javier Bardem como Irmão Lorenzo. Mostrando uma parte da vida do reconhecido pintor, a história se passa na Espanha, entre 1792 e 1809, durante as guerras Napoleônicas e a forte inquisição espanhola.
Goya ousou enfrentar a inquisição espanhola pintando “La Maja desnuda”, quadro em que pinta uma mulher nua, com o corpo a mostra, deitada em uma poltrona azul. Pintou também “A Maja vestida”, retratando então uma mulher praticamente igual à outra “Maja”, mas desta vez trajando roupas. Goya foi um daqueles flash artísticos que aparecem de anos em anos para, ao mesmo tempo, nos mostrar a genialidade e a grandeza de um quadro e mostrar a expressão humana tanto do drama e do horror, quanto da mitologia e da violência em suas formas mais reais.

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