Por Rosália L. Dors De acordo com o artigo How the BBC will remake itself to persuade the young to tune in, publicado essa semana, no site do jornal The Times, a corporação sinalizou o fim da radiodifusão tradicional ao anunciar uma nova estratégia para conquistar audiências. A BBC vai permitir que os telespectadores tenham controle sobre quando e como assistir aos programas televisivos. O diretor geral do canal público de TV, Mark Thompson, afirmou que a rede é considerada irrelevante para os jovens de
A British Broadcasting Corporation lançou as estações BBC3 e BBC4 a fim de desenvolver conteúdos para a tecnologia digital. Nesses canais, o telespectador pode interagir com programas de diversos gêneros através do controle remoto. Agora os planos da corporação são oferecer, via Internet, “portais” especializados em notícias, música, artes, assuntos infantis, história, ciências, conhecimento e saúde, além de um arquivo de programas clássicos. O receptor poderá, por sua vez, armazenar MP3, transferir vídeos e opinar acerca do conteúdo. Ainda não se sabe, contudo, se jornalismo e entretenimento terão o mesmo peso na programação.
Uma pesquisa da Forrester Research, feita no final década de 90, defende a idéia de que os produtos desenvolvidos para as TVs interativas estão direcionados a um público acostumado a navegar na rede mundial de computadores, que gosta de tecnologia. Afirma ainda a existência de um telespectador “preguiçoso”, portanto favorável a procedimentos simples, que necessitem de apenas alguns toques no controle remoto para acessar os serviços on-line. Outro estudo, feito pela revista britânica The Economist, publicado em abril de 2002, também mostra que os europeus podem até pedir uma pizza pelo sistema interativo da nova TV, mas não vão usá-la para atividades “sérias”, como comprar um seguro de vida, pois a função do veículo seria a de entreter. Além disso, o público não quer uma máquina que faça tudo, mas destaca, como vantagem, a facilidade de selecionar o programa e o horário com a televisão digital.
Mark Thompson acredita que o telespectador não deseja mais só sentar à frente do aparelho televisor, mas quer debater, criar, compartilhar. Essa mudança de concepção do receptor não é por acaso, pois a transição definitiva da televisão analógica para a digital está prevista para 2012 na Grã-Bretanha. A implementação do meio, cuja discussão baseia-se em um contexto de convergência de tecnologias de TV, computador e telecomunicação, trará modificações radicais no setor e incertezas de cunho econômico, tecnológico, cultural e regulatório.
A trajetória da TV digital inglesa
Em 1996, o Parlamento Inglês determinou normas para regular as transmissões de rádio e televisão digital através do Broadcasting Act (Ato de Radiodifusão). Segundo o documento, a TV digital estaria baseada em um sistema de multigeração de canais, o qual comporta a transmissão de serviços e programas simultaneamente, tanto de canais gratuitos como de pagos. A utilização das freqüências do espectro seria concedida mediante licença.
As características, a área de abrangência e a quantidade destes serviços seriam determinadas pela Comissão de Radiodifusão (Broadcasting Standards Commission), órgão com 15 membros, cujo presidente é indicado pela Secretaria do Estado. Além da qualidade solicitada, 10% da programação deveria ter origem de produções independentes e ser compreendida por pessoas com deficiência auditiva e de visão.
Em um artigo publicado na revista Media, Culture and Society, em 2004, Maria Sourbati defende que os radiodifusores deveriam oferecer serviços diversificados, com acesso adequado, além de permitirem a participação do público, pois esta parece ser a condição do indivíduo para estar engajado às atividades sociais e políticas da comunidade. Acrescenta que é fundamental adquirir conhecimentos do uso da tecnologia a fim de usufruir os serviços. A autora destaca o OFCOM (Office of Communication), órgão criado em 2003 para regular as ações das indústrias de comunicação da Grã-Bretanha, como responsável em “promover a alfabetização da mídia” entre a população.
Em dezembro de 2001, o governo lançou um plano, chamado Digital Television Action Plan, com o intuito de agendar ações para incentivar a adoção do sistema digital. Conforme Sourbati (2004), o documento identificava os benefícios da televisão digital, como o aumento do número de canais, melhoria na qualidade da imagem e do som, o acesso à Internet e a interatividade.
A meta inicial é que, em 2010, 95% da população inglesa tenha adotado o sistema digital; no entanto, governo e indústrias questionam tal índice de implantação e as aspirações dos usuários. Conforme a Associação dos Consumidores (Consumer”s Association),
Georgina Born, em texto publicado na Media, Culture and Society, em 2003, questiona como o OFCOM administrará a relação entre regulamentação do conteúdo e interesses econômicos e quantas plataformas digitais o governo inglês conseguirá sustentar. A autora lembra que o projeto da ITV Digital fracassou, em 2002, devido a problemas financeiros. Por outro lado, o grupo de oposição ao primeiro ministro Tony Blair vem defendendo a implantação da tecnologia digital, pois acredita que tal mudança oferecerá à Grã-Bretanha a liderança de um novo mercado e estimulará o mercado doméstico de informação e comunicação.
BBC e a nova TV brasileira
Voltando ao caso da BBC, a radiodifusora parece, além de garantir a situação financeira da corporação, querer conhecer o telespectador já que hoje a concepção do público é construída por quem gera os conteúdos televisivos e isso não significa saber o que ele deseja. Na realidade, assiste-se aos programas oferecidos, sejam maus ou bons em termos de qualidade. Por isso, a pesquisa de audiência demonstra muito mais a reação à oferta do que a demanda.
Por outro lado, o canal público tende a apoiar uma mudança na regulamentação. As emissoras comerciais não concordam, por exemplo, que a BBC ofereça os novos serviços sem submeter-se a um escrutínio sobre o impacto no mercado. As rivais também divergem quanto aos planos da corporação de investir em outros negócios, como jogos para computador. Já que, na Grã-Bretanha, as regras, felizmente, devem ser seguidas com rigor, ainda é cedo para comemorar as mudanças propostas por Mark Thompson. Ele enfrenta divergências até dentro da corporação.
Enfim, a discussão em torno da BBC, cujas estratégias visam às possíveis alterações provocadas pela TV digital e pela difusão de outros meios de comunicação, desperta a reflexão acerca da nova televisão no Brasil. Embora sejam contextos diferentes, os emissores terão, em comum, o desafio de criar conteúdos e formatos para a nova mídia. Quanto à interatividade, por exemplo, o mistério será como administrá-la.
O Brasil está discutindo qual sistema adotará para a televisão digital, mas prevalecem os conflitos entre diversos grupos com interesses particulares e opostos. Ao público, importa a programação que ele receberá em casa pela TV. Assim é importante debater sobre o que nós queremos da TV digital brasileira, enquanto há tempo.

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