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As Pequenas Bolas Amarelas

Por J. A. Moraes de Oliveira Aos domingos à tarde, meus pais costumavam me levar para longos passeios pelos Moinhos de Vento. Caminhávamos ao …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Aos domingos à tarde, meus pais costumavam me levar para longos passeios pelos Moinhos de Vento. Caminhávamos ao longo dos imponentes casarões da rua Mostardeiro, até alcançar o parque da Hidráulica, onde o sol dourado de inverno atravessava as paredes de vidro, refletindo-se nos grandes reservatórios de água.

Eu e minha irmã corríamos pelas passarelas desertas, ouvindo o zumbido das máquinas de filtragem e imaginando misteriosos seres submersos que se preparavam para invadir a cidade.

Quando as sombras dos ciprestes se alongavam sobre os gramados do parque, as brincadeiras eram interrompidas pelo longo assovio de meu pai.

Era a hora de voltar e sabíamos que minha mãe gostava de chegar cedo em casa, para não perder a hora de um dos poucos luxos a que se permitia.

Ela sentava-se ao lado do rádio Telefunken de 16 válvulas e esperava a hora do “Grande Teatro Farroupilha”, que dramatizava famosos romances da literatura universal.

Por vezes, nosso passeio era interrompido por um certo som abafado e ritmado, que vinha dos jardins de um dos casarões na rua Mostardeiro. Em uma vez, fui até a alta cerca do jardim do casarão e, na ponta dos pés, consegui descobrir a origem daquele som intrigante.

Dois homens vestidos de branco jogavam uma partida de tênis, enquanto um pequeno grupo, sob um guarda-sol colorido, aplaudia alegremente as jogadas. Sobre a mesa, jarras de laranjada e uma grande cesta de frutas.

A visão me fascinou instantaneamente e por completo. No caminho de volta, as fantasias criaram vida e assumiram cores e sons tão reais como os da cena que acabara de ver. Me imaginava vestido de branco, jogando em um clube aristocrático, minhas jogadas sendo aplaudidas por um grupo de moças elegantes e sorridentes.

No dia seguinte, na mesa do café da manhã, perguntei ao pai se eu poderia aprender a jogar tênis.

“Meu filho – respondeu – o tênis é o esporte mais bonito que existe, mas é para poucas pessoas. É preciso muita dedicação e existem poucas quadras públicas na cidade. Além disso, é preciso pagar um professor, que só ensinam em clubes grã-finos“.

Senti minhas visões de me tornar um grande tenista se desvanecerem, mas ele continuou:

“Neste sábado, eu não vou à roda de chopp do Lilliput. Então, nós dois vamos dar um passeio e visitar um amigo meu, lá pelos lados da Sociedade Leopoldina.”

No dia marcado, eu estava pronto bem cedo, vestindo minha melhor roupa e ardendo de ansiedade. Agarrei firme a mão do pai e subimos a Ramiro Barcelos até a Praça Júlio de Castilhos. De lá, seguimos num bonde gaiola da linha Prado, em direção aos Moinhos de Vento.

Pela primeira vez, entrei no grande casarão da Sociedade Leopoldina, onde meus colegas ricos almoçavam aos domingos com a família. Meu pai encontrou um homem alto e magro, com a pele tostada de sol. Ele estava vestido de branco e tinha uma raquete de tênis na mão. Aproximou-se e notei que seus olhos azuis sorriam quando falava:

“Meu nome é Ervino Rath e sou o professor de tênis do clube. Vem comigo até a quadra, para ver de perto o treino.”

Durante a próxima meia hora, acompanhei enfeitiçado as mágicas bolinhas amarelas voando de um lado para o outro da quadra.

Quando o bate-bola terminou, permaneci no mesmo lugar. Os alunos se encaminharam para o vestuário, enquanto os funcionários do clube recolhiam as bolas usadas e começavam a molhar as quadras.

Ao sentir o cheiro acre do saibro molhado, imaginei-me sendo parte daquele mundo encantado – as quadras impecáveis, as roupas brancas, minhas raquetadas lançando as bolas amarelas por cima da rede.

Meu pai conversava com o professor Rath, que me acenou de longe com seu sorriso de rosto inteiro. Pouco tempo depois, retomamos o caminho para a parada de bondes.

Eu não tirava os olhos do pai, pressentindo que ele estava por dizer alguma coisa, mas receava de não ser o que eu esperava. Descemos na praça Júlio de Castilhos e sentamos em um dos bancos de pedra, pintados de verde. Foi quando ele disse que tinha uma surpresa para mim – convencera o professor Rath a me ensinar a jogar tênis.

As aulas seriam aos sábados, às 7 horas da manhã, no Clube Excursionista. Naquela noite, não consegui dormir direito – eu sequer tinha uma raquete e nem ao menos sabia que bonde tomar para ir até o Menino Deus.

A primeira aula foi decepcionante – cheguei atrasado ao clube e tive que usar uma velha raquete Dunlop, que o professor Rath retirou do fundo de seu armário no vestuário do clube. E eu era o único aluno no treino que não conseguia bater direito na bola.

Mas eu ainda não conhecia Rath – ele não desanimava nunca nem deixava seus alunos desanimarem. Insistia que eu batesse bola no paredão até cansar. Somente quando via as camisetas molhadas de suor, se dava por satisfeito e nos mandava para o chuveiro.

Depois do paredão, foi minha vez de bater bola com os outros alunos, sempre debaixo de seu olhar atento e de sua voz de comando, ora corrigindo a “pegada”, ora a posição de bater na bola.

O tempo passou e, aos poucos, fui completamente seduzido pela magia do esporte, acordando cedo aos sábados, domingos e feriados para chegar na quadra antes dos outros. E lá sempre encontrava Rath, alternando violentos golpes de raquete com seus gritos de estímulo:

“Vamos lá, meninos, sem desânimo – o tenis não aceita tristezas.”

Quando finalmente consegui comprar minha primeira raquete – uma Slazenger nova em folha, fui devolver a velha Dunlop, que ele guardou no fundo de seu atulhado armário:

“Ela vai esperar pelo próximo que chegar sem raquete.”

Mesmo muitos anos depois, a cada vez que eu entrava em uma quadra, era possível ouvir a voz daquele homem sorridente de olhos azuis:

“É preciso dar um tapa na bola, é preciso bater com vontade, bater com alegria.”

***

Em um dia de inverno, o nosso grupo se preparava para jogar, quando chegou a notícia que Ervino Rath havia sofrido um ataque cardíaco em plena quadra.

Ficamos em silêncio por um tempo, até que alguém lembrou que o velho professor sempre dizia que no tênis não há lugar para tristezas.

Naquela manhã, batemos mais forte do que nunca nas pequenas bolas amarelas.

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