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Ave, Aveline

Por Lauro Schirmer Lembrando a saudação a César, é preciso aqui mudá-la: em vez de morituri, são os que viverão com a lembrança de …

Por Lauro Schirmer

Lembrando a saudação a César, é preciso aqui mudá-la: em vez de morituri, são os que viverão com a lembrança de João Baptista Aveline que o saúdam na hora em que ele nos deixa. Somos milhares, muitos milhares que tiveram a ventura de conviver com ele, aprendendo a admirá-lo e a querer-lhe bem. Na sua despedida, que reuniu tantos companheiros e amigos, Ibsen Pinheiro – que começou a conhecê-lo há mais de 50 anos no jornal do PCB, Tribuna Gaúcha – fez questão, em emocionada oração, de destacar entre as grandes qualidades do Aveline o afeto. O afeto que ele soube dar a quantos conheceu e que o tornou um amigo querido de todos que encontrou – companheiros ou não – ao longo de seus 86 anos.

Como jornalista emérito, líder sindical atuante e respeitado, militante político cuja coerência o fez seguir comunista até o fim, João Baptista Aveline escreveu uma trajetória de vida exemplar, também como cidadão reconhecido pela retidão de caráter e como pai de família. Foi comovente ver, na despedida final, o filho mais velho, Luiz Carlos, aos prantos, conseguir apenas dizer, em nome dos irmãos: “Pai, nós temos muito orgulho de ti!”

Todos nós temos muito orgulho do Aveline. Pois ele foi o companheiro que começou a escrever, desde a primeira hora, a história da RBS. Vale lembrar que ao assumir a Rádio Gaúcha, em 1957, Maurício Sirotsky Sobrinho foi buscar o João Baptista Aveline para chefiar o jornalismo da emissora. Com ele se estabeleceu o marco inicial da valorização da notícia no rádio entre nós e os inovadores rumos da Rádio Gaúcha.

Em depoimento ao livro RBS: Da Voz-do-Poste à Multimídia, Aveline fez questão de destacar: “Quando me chamou, é claro que o Maurício sabia que eu era militante do PCB, mas isso nunca foi problema. Nem naqueles tempos mais risonhos, nem depois, nos anos de chumbo, quando eu era chefe de reportagem de ZH e fui preso pela Polícia Federal. Não só recebi apoio, como voltei a trabalhar no jornal, recebido inclusive pessoalmente por ele”.

Além de sua contribuição importante à Rádio Gaúcha, quando esta se transformou na célula mater da RBS, João Baptista Aveline também teve participação destacada na afirmação de Zero Hora a partir de 1970, quando o jornal se integrou à RBS. Foi chefe de reportagem no período em que ZH começou a crescer até converter-se no maior jornal gaúcho e sexto do país. Mas sua passagem foi marcada por muitos grandes lances. Um deles aconteceu na madrugada em que Aveline, de plantão, recebeu pelo teletipo a notícia de que três cosmonautas russos haviam morrido no espaço. Já não havia na oficina quem preparasse o texto para o jornal, o que levou o Aveline a fotografar na capa do jornal, sob a manchete Tragédia no Espaço, Russos Morreram, o próprio texto do telegrama da France Press. Foi assim que Zero Hora se tornou o único jornal no Brasil, naquele dia, a dar a notícia da morte dos cosmonautas.

Mas voltando a Aveline e seus afetos. Seu último desejo é uma bela mostra de como ele era. Pediu para ser cremado e também para que fosse cremada sua companheira falecida não faz muito. As cinzas dos dois serão espalhadas pela baía da Guanabara, onde tiveram seu primeiro encontro.

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