Por Mauro Pereira-de-Mello Brancos, negros, velhos e moços, mulheres e homens, alguns mais, outros menos fanáticos, todos igualmente ansiosos: no centro, o homem prepara-se para falar. Ele concentra todas as esperanças de mudanças, de uma vida melhor e mais justa para toda a sua gente. Fala por imagens, conta parábolas, descreve suas jornadas, relata histórias de companheiros, conhecidos ou desconhecidos. Suas histórias inspiram, provocam, transformam ouvintes em seguidores.
A descrição caberia para vários líderes carismáticos históricos. O bom contador de histórias tem sempre uma passagem vivida, uma epopéia, ou uma jornada fascinante, capaz de ilustrar suas afirmações com imagens inspiradoras e claras, que aderem à imaginação. E este também é o segredo que faz de Barack Obama o grande contador de histórias das eleições americanas de 2008.
Obama dirige-se ao centro do palco, rodeado de rostos ansiosos e cercado de expectativas com a calma e a presença de quem está fazendo algo muito natural em uma roda de amigos. A voz pausada, o jeito tão à vontade e – ao mesmo tempo – tão cheio de autoridade, o físico elegante, muito magro, alto, aproxima-se do microfone e as palavras fluem naturalmente. Tem tanta segurança de sua presença, de onde está e de suas posições que pode até elogiar seus adversários. O nome de outros políticos não parece queimar seus lábios. Não há rancor em suas palavras. Há esperança em sua mensagem.
Change. Yes we can (Sim, nós podemos). Ele não tem apenas um slogan. Ele é a personificação da esperança, a própria mudança. Está na pele, na cara, até em seu nome. Quem não acreditaria, ao saber que aquele homem, negro e com um nome estrangeiro, é o provável novo presidente dos Estados Unidos da América?
Contando as histórias certas e verdadeiras, Barack – como prefere ser chamado -, transformou suas desvantagens em pontos fortes, seu slogan em um grito de independência e uma campanha política em um movimento de massas.
Como um bom roteiro de Hollywood, seus discursos começam com histórias. No geral, Obama traça a trajetória de um ou mais personagens, contando suas emoções e motivações. Um enredo com começo, meio e fim. Seus discursos remetem à origem das sociedades, quando os homens sentavam-se em torno de fogueiras para ouvir o contador de histórias da tribo, o perpetuador da tradição oral de cada povo. Ao fazê-lo, utiliza os mais modernos recursos à sua disposição. Em maio, seu site teve 2,3 milhões de visitantes únicos, contra 563 mil de McCain – o candidato republicano.
Barack está presente em praticamente todos os sites de relacionamento mais populares, onde abre espaço para seus novos amigos. Só no MySpace, são mais de 400 mil. Em seus domínios na Web, as histórias pessoais de seus apoiadores se destacam. Sua família conta da emoção dos comícios e da vibração das pessoas.
Ele pede: mande a sua história para nós.
Obama é um colecionador de histórias. Sabe traduzi-las em belas palavras para conquistar corações e mentes. Mas, apesar de toda a habilidade e carisma, não dispensa a velha e boa mídia. Ele – ou sua equipe – entende de publicidade. Ele sabe que os sites mais acessados geralmente têm correspondência com o mundo real. Sabe que os sites que mais investem em publicidade na televisão, jornais, revistas ou rádio são os que atraem mais usuários. Por isso, nesta campanha, é de longe o candidato com as maiores verbas publicitárias. Já são mais de US$ 100 milhões. Já negocia um pacote de comerciais na TV aberta durante a transmissão dos jogos olímpicos de Pequim.
No fim, o segredo de Obama é entender o conjunto. Manter o romantismo e o idealismo dos discursos de líder carismático, e conservar os dois pés no chão, usando tanto velhas como novas mídias para levar suas histórias a mais de 300 milhões de pessoas.
Afinal, não dá para sentar todas elas em torno de uma fogueira.
No dia em que sua vitória sobre Hillary Clinton foi confirmada nas primárias para escolha do candidato democrata, ele resumiu sua jornada com mais uma história: “Esta noite, depois de cinqüenta e quatro disputas acirradas, nossa temporada de primárias chegou ao fim. Dezesseis meses se passaram desde que estivemos juntos pela primeira vez nos degraus da Velha Assembléia do Estado em Springfield, Illinois. Milhares de milhas foram percorridas. Milhões de vozes foram ouvidas. E por causa do que vocês disseram (.) hoje à noite nós marcamos o fim de uma jornada histórica com o início de uma outra, que trará um novo e melhor dia para a América”.
E esta história parece estar apenas começando.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial