Por Antônio Goulart Mario Benedetti, o escritor uruguaio que morreu esta semana, aos 88 anos, nos deixou uma das mais pungentes e perturbadoras reflexões sobre a velhice. O curioso é que foram registradas por volta dos 40, bem antes de qualquer experiência vivida na derradeira fase da existência.
Encontram-se na novela A Trégua, montada em forma de diário, onde um pacato funcionário de escritório, poucos antes da aposentadoria, já viúvo, relata a rotina burocrática, a relação tumultuosa com um dos filhos e, sobretudo, a sutil e comovente história de amor com uma subalterna no serviço.
Aqui, um trecho do que escreveu, num domingo 2 de junho:
– O tempo se vai. Às vezes penso que teria que me apressar, tirar o máximo proveito dos anos que me restam. Hoje, qualquer um pode dizer, depois de examinar minhas rugas: “Mas você é ainda (todavia) um homem jovem”. “Todavia”. Quantos anos me restam de “todavia”? Penso nisso e me vem a ansiedade, tenho a angustiante sensação de que a vida está me escapando, como se minhas veias se abrissem e eu não pudesse deter o sangue. Porque a vida é muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que quando pensamos na palavra Vida, quando dizemos, por exemplo, “que nos apegamos à vida”, a estamos associando a outra palavra mais concreta, mais atrativa, seguramente mais importante: estamos associando ao Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e estou certo de que isso é vida. Daí a pressa, a trágica pressa desses cinqüenta anos que me pisam os calcanhares. Ainda me sobram, assim espero, uns quantos anos de amizade, de razoável saúde, de rotineiros afazeres, de expectativa pela sorte. Mas, quantos me restam de prazer? Tinha vinte anos e era jovem; tinha trinta e era jovem; tinha quarenta e era jovem. Agora, tenho cinqüenta anos e sou “todavia joven”. “Todavia quiere decir: se termina”.
Esse é o lado absurdo do nosso convívio: dizemos que o levaríamos com calma, que deixaríamos correr o tempo, que depois revisaríamos a situação. Porém, o tempo corre, queiramos ou não, o tempo corre e a torna [a amada] cada dia mais apetitosa, mais madura, mais fresca, mais mulher, e em troca ameaça, a cada dia, tornar-me mais doente, mais acabado, menos valente, menos vital. Temos que nos apressar para o encontro, porque no nosso caso o futuro é um inevitável desencontro. Todos os seus Mais [os da namorada] correspondem aos meus Menos. Todos os seus Menos correspondem aos meus Mais. Compreendo que para uma mulher jovem pode ser um atrativo saber que alguém é um sujeito vivido, que há muito trocou a inocência pela experiência, que pensa com a cabeça bem posta sobre os ombros. É possível que isso seja um atrativo, mas muito breve. Porque a experiência é muito boa quando vem acompanhada do vigor; depois, quando o vigor vai embora, a pessoa passa a ser uma decorosa peça de museu, cujo único valor é ser a lembrança do que já foi. A experiência e o vigor são contemporâneos por muito pouco tempo. Eu estou agora nesse pouco tempo. Mas não é uma sorte invejável.

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