Por José Antônio Silva Sim, lembro de alguma coisa, flashes desconexos na tela da memória. Anos 70, universidade, noite, ditadura, acampamentos, festivais, repúblicas e comunidades, nossas famílias, fumacê e vinho de garrafão, amigas, jornalismo, literatura/literatice, música – gaita de boca. Encaixo o Betão Andreatta neste universo visual e emocional, em que entrávamos na vida adulta marcados por uma resistência latente, quase natural, ao regime de exceção que dominava o País, e pelos conceitos libertários da contracultura, dois universos que nos equilibravam numa linha fina – e que na verdade nem percebíamos: apenas caminhávamos sobre ela.
Sim, lembro do Betão desde essa época, grande a começar da altura e a terminar pela generosidade e – contraditoriamente com seu gigantismo – pela delicadeza. Lembro do apartamento na João Pessoa, onde ele vivia com a família de mãe e irmãos. O pai, um ex-padre italiano de nascença, já era falecido.
Não, ele não era da Famecos (PUC), onde circulávamos, numa trinca quase inseparável, André Pereira, Zé Walter e este que digita. Betão era da Fabico (Ufrgs), mas da mesma geração e um daqueles caras no qual a gente pode apostar, pouco depois de conhecer, que será amigo para o resto da vida.
Sim, a vida dele agora não tem mais resto. Terminou neste domingo (04/11/2007), enquanto fazia os preparos para o churrasco com a mulher Côca e o filho Mateus. Talvez pensasse na filha distante – Luciana, mensagens pela internet, ligações telefônicas -, na distante Nova Zelândia.
Sua vida não tem resto (resto, aliás, uma palavra de pouca afetividade), mas tem conseqüências e continuação nos filhos, nas obras materiais (livros, grandes reportagens), nos ensinamentos que deixou (por que não?) o Humberto Andreatta. Grande jornalista (editor competente, bom repórter, excelente chefe de reportagem e líder motivador da equipe, sem técnicas de merchandising). Observador atento da realidade, solidário, participativo, mas com um necessário grau de ceticismo – só fazia sua voz ser ouvida quando julgava necessário (seu último texto, que circulou pela rede, foi em defesa da TVE e Rádio FM Cultura públicas).
Sim, lembro de “fazermos som” – ele e eu, a bordo das respectivas gaitas-de-boca, blues precários, eventualmente com a participação luxuosa de Zé Walter ao violão.
Lembro de quando seu irmão mais moço despencou das arquibancas montadas na Redenção – em frente à casa do Betão – e ficou numa cadeira de rodas por anos. Lembro das bebedeiras na Esquina Maldita (no Alasca, especialmente), do chope com underberg no Pica-Pau, na mesmíssima João Pessoa, e de outros bares da vida.
Das visitas às amigas e colegas do interior, em apartamentos espalhados pelo centro da cidade, Cidade Baixa, onde a verdadeira república vigorava, apesar do país viver em ditadura.
Lembro das discussões intermináveis sobre todos estes assuntos, e lembro em especial do acampamento de duas semanas que fizemos no Farol de Santa Marta (Laguna, SC) em janeiro de 76. Betão e Côca – o casal já estava formado. Sol, mar, barracas e mosquitos, cerveja e peixe frito, futebol com os pescadores, mergulhos, sustos, uma moça ruiva de perna quebrada, resgatada de barco até Laguna. Quem mais? André e Jacqueline, Ana Elusa, Ricardo Blue Barreto, Evandro Chinês, Zé Giralt, tantos mais…
Depois, pouco depois, parti para dez anos de ausência do Rio Grande, amadurecendo como profissional e ser humano em São Paulo, capital.
No regresso, para o Diário do Sul, o reencontro com vários amigos – inclusive o Betão velho de paz. Tempos de muita disposição, tesão pelo jornalismo e muita mobilização da redação, apesar (ou por conta) dos salários atrasados, do calor infernal daquela caixa de vidro fumê, das más condições de trabalho… E do belo jornal que se fazia. O caderno editado por Betão virou uma das vitrines de qualidade do DS.
Lembro que, lá por 88 ou 89, ele era um dos poucos conhecidos que possuía a grande novidade do momento: um aparelho de CD… Foi em sua casa no Partenon, enquanto a carne dourava no espeto, que escutei pela primeira vez os velhos Beatles em gravação digital, naquele disquinho que vinha com tudo, para relegar o LP a mero, embora importante, versículo na enciclopédia da música. Sim, porque Betão tinha disso: ao contrário de mim (mais “analógico”), ele apreciava, na mesma medida da melodia, as novas tecnologias, que tornavam a sonoridade ainda mais pura e íntegra em todas as suas nuances. Sim, eu lembro: Betão adorava o Pink Floyd.
Betão, o editor elogiado; Betão, o chefe de Jornalismo da FM Cultura; Betão, um dos primeiros colegas da nossa geração a se “independizar” (êpa!) das grandes empresas jornalísticas, criando com engenho e arte sua própria editora. Um pé na dura realidade da sobrevivência, outro na sobrevivência da ética.
Amigo de fé, referência de bom senso e equilíbrio, figura incontornável, um daqueles caras que fazem a gente pensar que a humanidade até vale a pena. Tinha seus defeitos, suas manias, sua teimosia e seus desacertos. Enfim, um ser humano – que procurava melhorar.
Aquele olho bem atento, que supria a imobilidade do parceiro. O bigodão amarelo e ouriçado, de piloto da britânica Real Air Force.
Sim, lembro bem do Betão, tanto o dos primeiros anos 70 quanto o dos últimos anos de vida. E provavelmente vou lembrar sempre. Que nem vocês.

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