Por J. A. Moraes de Oliveira Nos primeiros verões passados na fazenda do Passo Grande, eu ainda era muito pequeno para andar sòzinho a cavalo. Sempre dependia da boa vontade de um dos tios para me conduzir, na garupa de seu cavalo, em um passeio pelo terreiro. Durava pouco, porque eles logo tinham que voltar às lides do campo.
Nos dias de rodeio, quando o gado era reunido na grande mangueira, eu galgava a alta cerca de toras e ficava admirando os cavalos crioulos, caprichosamente encilhados e garbosamente montados pelos tios e por alguns primos mais velhos.
Desde o romper do dia, eles já estavam por lá, apartando bois para vender ou terneiros para marcar. Eu engolia o café-da-manhã e corria para não perder o espetáculo, imaginando quando chegaria minha vez de montar em um daqueles cavalos de olhos brilhantes e de crinas que flutuavam ao vento.
A um canto, na sombra da grande figueira ficava o meu avô, Patrício Vieira de Moraes, com um olho atento em cada detalhe, enxergando de longe o que os peões, de perto, deixavam passar. Por vezes, uma rês se desgarrava do rebanho e fugia em direção ao campo aberto.
Então, o avô dava um assovio curto – sinal para os dois melhores ginetes da fazenda – os tios Alvinho e Deoclécio. Em um piscar de olhos, eles erguiam seus rebenques, cravavam as esporas no lombo dos cavalos, soltavam um grito de guerra e disparavam atrás do desgarrado.
Meu coração também disparava, enquanto eu acompanhava com os olhos cavalos e cavaleiros, subindo e descendo as coxilhas, seguidos de perto por Profeta, o grande cão pastor do avô.
Eu devia estar transbordando de encantamento com tudo aquilo, pois mais tarde, quando o rebanho era conduzido para a invernada no fundo do campo, meu avô desceu-me da cerca, pousou em mim seus olhos azuis e perguntou se eu gostaria de montar sòzinho um daqueles cavalos.
“Claro, vovô Picurra, mas minha mãe não deixa – ela tem medo que eu leve um tombo”, respondi.
E ele: “Ela vai deixar sim, mas não deves mostrar medo, eu escolho um bicho bem domado e o peão Edu vai te levar pelas rédeas”.
E, andando em direção aos galpões, ainda teve tempo de corrigir: “Meu neto, a gente fala rodada, e não tombo“.
Pensei que ele estava brincando com o neto recém chegado da cidade grande. Por isso, quase não acreditei quando o negro Edu chegou com um belo zaino vermelho, encilhado com pelegos brancos e os arreios de cabeçalho de prata, que o avô não deixava ninguém usar.
Fiquei mudo e de boca aberta, sem acreditar naquilo, mas ao mesmo tempo, já me imaginando em cavalgadas ao vento, coxilhas acima e coxilhas abaixo.
No momento seguinte, meu avô atravessou o terreiro, vindo da casa, seguido de minha mãe, que não conseguia esconder um riso nervoso.
E o avô, entre sério e divertido:
“Tua mãe concordou que já estás na idade de passear a cavalo sem precisar a garupa de ninguém. Mas tens que tomar cuidado para não rodar e te machucar”.
E com uma demorado afago na bela mancha branca no focinho do zaino vermelho, meu avô Picurra fez o mais longo discurso que ouvi dele:
“Este é o Bico Branco, um cavalo valente. Juntos, nós cavalgamos por estes campos, de noite e de dia, no sopro frio do minuano e debaixo de temporais. Uma vez, nos salvou de uma cobra jararaca, pisoteando nela até matá-la. Mas não deves ter medo, os cavalos crioulos são dóceis quando gostam de quem os monte. Eles viveram no pampa como selvagens durante quase 400 anos. Foram domados pelos charruas e acompanharam Bento Gonçalves e Pinto Bandeira em suas tropelias por este Rio Grande afora. O cavalo crioulo não tem medo do frio nem do calor, não precisa de muita água nem de muita comida. Sabe ser teu amigo e companheiro.”
Me soergueu no ar e me vi no alto dos pelegos brancos, longe do chão e próximo do céu. O negro Edu conduziu o Bico Branco até um bom pedaço campo adentro. Senti o vento soprar nos cabelos e um arrepio percorreu minha espinha. Voltei-me e acenei para meu avô e minha mãe, que me acompanhavam com o olhar.
À minha frente, as coxilhas ondulavam e os campos se perdiam no horizonte. Eu sentia a alma dividida – suava frio nas mãos, mas ardia de
vontade de cavalgar até aquelas coxilhas e descobrir o que havia depois delas.
Depois de algum tempo, Edu parou, deu meia volta e reconduziu Bico Branco para o terreiro. Quando chegamos às estrebarias, minha mãe estava sorrindo, aliviada por me ter de volta daquela pequena aventura.
Na mesa do almoço, não senti nenhum gosto na comida nem repeti a ambrosia que a avó Ana Augusta havia preparado no grande panelão de ferro. Eu apenas pensava no passeio no Bico Branco no dia seguinte e imaginava se ele poderia me levar campo adentro até o cimo das distantes coxilhas.
***
Passados muitos anos, quando meus avós já estavam mortos, fui visitar a fazenda abandonada e em ruínas. Caminhei vagarosamente pelo terreiro, até debaixo da velha figueira. Aqui e ali, troncos de madeira corroídos pelo tempo marcavam o lugar da grande mangueira dos rodeios.
E enquanto caminhava meus largos passos de adulto, refez-se a magia daquela distante manhã. Mas, algo desencantado, descobri que minha primeira cavalgada não havia avançado mais do que uns poucos metros no campo aberto.
Levantei os olhos para o horizonte – no campo, as coxilhas de minha infância continuavam no mesmo lugar.

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