Por Zélia Leal
Todo mundo quer ter um blog. De Bruna Surfistinha a Cristovam Buarque. O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, foi o pioneiro, mas já desistiu. Há lugar para todos na blogosfera: são 47 milhões de blogs no mundo. O volume dobra a cada seis meses. Todos querem opinar, não apenas informar. É tanta exposição, que os críticos da mídia estão dizendo que a opinião virou a nova pornografia na web. No mundo político, não é diferente. Na blogosfera, a campanha eleitoral já começou. Chegamos à tão sonhada democracia direta. Não precisamos mais de intermediários. Agora os políticos podem falar diretamente com seus eleitores. Pressionados pela opinião pública, que cobra transparência e atitudes corretas, alguns eleitos já prestam contas de seus atos na Internet. O deputado socialista espanhol Rafael Estrella publicou a lista de seus colaboradores, apoiadores financeiros e contatos na mídia, com nome completo e e-mail. Nos Estados Unidos, vários políticos se relacionam com seus eleitores via Internet.
O PT já anunciou que vai incluir no site de campanha de Lula links de blogs e comentários favoráveis ao candidato. Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência da República, pretende seguir o mesmo caminho. Mas o professor Cristovam Buarque, ex-reitor da UnB e candidato pelo PDT, já se adiantou e lançou seu próprio blog. É só entrar no Google, o mais famoso motor de busca e digitar “blog do Cristovam”. Está lá a fotinho do senador, simplesmente Cristovam (sem o Buarque) para os íntimos e não íntimos. A diferença com os demais candidatos é que se trata de um verdadeiro blog porque Cristovam, que é escritor, escreve. Autor de vários livros em ciências sociais e de uma obra de ficção, o professor tem o dom da palavra. É um homem culto. O que foi motivo para muita polêmica durante a campanha eleitoral para governador do Distrito Federal. Diante da simplicidade verbal do adversário do PMDB, Joaquim Roriz, o discurso de Buarque parecia provocação. A página mostra a agenda do candidato, tentando narrar em tempo real as atividades políticas do ex-petista. Na última quinta, 13 de julho, almoçou no restaurante Cedro do Líbano, no bairro Saara, Rio. Mesmo dia em que quatro brasileiros de Foz do Iguaçu foram mortos no Líbano, vítimas de um ataque israelense. No blog de Cristovam, as regras são claras: os comentários devem ser identificados e não devem caracterizar calúnia, injúria e difamação. Diz também que não devem conter palavrões, insultos, agressões verbais, ofensas e baixarias de um comentarista para outro comentarista. Ou seja, é preciso aceitar as regras do jogo. Interativo e com grife do autor/candidato, o blog de Cristovam pode lhe render bem mais que os dois minutos e meio por dia na TV.
O desenvolvimento das tecnologias (satélite, cabodifusão, fibras ópticas) permite cada vez mais a presença de vários atores sociais no espaço midiático. E se comunicar diretamente com o público via Internet é uma operação extremamente eficaz e pouco onerosa.
Mas o que diz a legislação eleitoral sobre blogs? Não sabemos ainda. O fenômeno é muito recente. Ninguém controla a rede mundial de computadores. Se a moda pega, o blog será o novo paradigma desta campanha eleitoral, sem limite de tempo nem espaço. Quem sabe Heloísa Helena, do P-Sol, que terá pouco mais de um minuto na TV, possa alcançar 1 milhão de visitas na web.
Assim como os blogs representam um espaço de jornalismo de autor e de identidade profissional no campo das mídias, no campo da política eles podem servir de espaço de transparência onde cada candidato poderá realmente “mostrar a cara”, sem intermediações. Em vez de campanhas milionárias é o momento de criar uma intimidade com o eleitor através de uma janelinha aberta na imensidão do ciberespaço.

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