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Por André Martins Fim do Hino Nacional Brasileiro. O povo ovaciona os jogadores e a si mesmo depois de acertar em cheio só no …

Por André Martins

Fim do Hino Nacional Brasileiro. O povo ovaciona os jogadores e a si mesmo depois de acertar em cheio só no refrão da letra. O Maracanã reformado está impacientemente patriótico. “Pátria amada, Brasil” não foi um grand finale, mas um prelúdio esperançoso. O maior jogo da história do futebol e do Brasil vai começar. O destino da Nação está em nossos pés.

Um minuto de silêncio em memória de Tancredo Neves, que amarelou e bateu com a alcatra na terra ingrata antes da partida. Armando Marques apita, para desespero de Galvão Bueno. É dado o pontapé inicial, ou melhor, inaugural. Pelé passa para Ronaldo, que lança Garrincha, que sai driblando até quem está no banco de reservas da história e também os titulares Getúlio, JK, Jânio, Jango, mas Costa e Silva entra duríssimo no lance e decreta o AI-5. Confusão total, empurra-empurra, bofetões. João Saldanha protesta. As Forças Armadas entram em campo e encostam todo mundo na parede. João Saldanha é acusado de ser comunista e é expulso. Zagalo entra no lugar dele. A turma vai ter de engolir. Denúncias de que os militares estariam torturando pessoas nos porões do Maracanã. Mas o jogo continua.

Zé Sarney assume o controle da bola, mas resolve declamar poemas. Só a Academia Brasileira de Letras suporta. O povo quer milagres, não marimbondos de fogo. Fernando Collor é escalado para o lugar dele como uma grande promessa. Sangue novo no jogo, a galera grita seu nome. Ele quer dar show, joga pra torcida, faz gestos ensaiados. Mas de repente faz uma jogada desleal, contra o patrimônio, gol contra. A torcida dá-lhe o cartão vermelho do impeachment. Fernando Collor está fora de jogo por oito anos, mas diz que vai voltar.

Itamar é a bola da vez. Ele tem topete, vai pra cima do adversário, mas confunde driblar com blefar e futebol com circo. É desarmado. Fernando Henrique retoma a bola, sob os apupos das sociais, que apostam no seu estilo de jogo. Fernando Henrique é fominha como todo intelectual. Faz pose, discursa com a bola e não quer passá-la para ninguém. Muito menos para o inculto Lula, que sai da esquerda e cai pela direita pra ver se agrada a torcida. Até que agrada, mas não joga nada. Lula chora e fica sozinho na direita, dizendo-se traído pelos corinthianos.

A bola agora está com o capitão Carlos Alberto, que passa para Nilton Santos, que lança Pelé, mas eis que Médici entra pesado como um urutu, invocando a Segurança Nacional. Figueiredo vem atrás, a cavalo, distribuindo coturnadas. Mais confusão. Parece campeonato gaúcho. Ânimos acirrados. Geisel chega com a turma do deixa disso, abrindo espaço pra todo mundo respirar, mesmo que para isso tenha que esmagar um ou outro. O clima melhora. Fala-se até em anistia ampla, geral e irrestrita de cartões amarelos e vermelhos e eleição direta para presidente do clube.

A bola está rolando de novo, nos pés de Pelé. E ele tem espaço. E tem Romário, Ronaldo e Ronaldinho se movimentando. A jogada está se armando, o futebol arte renascendo, o gol sendo desenhando pelos pés de artistas geniais. Getúlio percebe o perigo e, no círculo central, diante do Maracanã lotado, saca um revólver e dá um tiro no peito. O Brasil não consegue vencer a si mesmo. O jogo vai para o tapetão.

Vira CPI com patrocínio da Nike e da Pizza Hut.

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