Por Ronaldo Sant”Anna Estes dias reli “O senhor da moscas”, de William Golding, um belo livro, no qual um grupo de meninos ingleses, sobreviventes de um acidente aéreo, fica isolado em uma ilha deserta. A luta pela sobrevivência começa a mudar o comportamento dos garotos, que acabam tornando-se, no final, verdadeiros selvagens. É inevitável a comparação com as mudanças que estão acontecendo no cotidiano das grandes cidades, aliás não só nas grandes, em todo o Brasil.
Não há dúvida que a violência que aparece todos os dias nos noticiários, como a que vitimou o menino João Hélio, no Rio de Janeiro, ou a da família que foi queimada dentro do carro, no interior de São Paulo, no ano passado, aponta para uma “barbarização” da criminalidade, uma gratuidade na utilização da violência nos atos criminosos, mostrando que a vida do outro não tem nenhum valor.
Essas mudanças estabelecem novos paradigmas nas relações sociais e, algumas vezes, estes modelos de comportamento parecem ser sugeridos ou apresentados pela mídia, a qual, sabe-se, na maioria das vezes reflete uma realidade já existente. O clássico exemplo da lei de Gerson, que surgiu com um comercial do cigarro Vila Rica, apresentado pelo meio-campista tricampeão do mundo no México, e que já foi tema de estudos acadêmicos, criou no imaginário popular a idéia que é correto tirar vantagem de tudo, mesmo atropelando a ética. Como dizia o canhotinha da seleção de 70, no encerramento do comercial, “gosto de levar vantagem em tudo, certo”, exagerando no sotaque carioca.
Na semana passada, assisti a dois comerciais de uma empresa de telefonia. No primeiro, uma mulher, ao ver uma outra, bem mais velha, tentar subir uma escada com dificuldade, oferece ajuda. Quando aceita, a mais jovem avisa que vai custar uma determinada quantia em dinheiro, para espanto da idosa. No outro, uma jovem tropeça e cai, um homem se aproxima e também oferece ajuda e, igualmente, estabelece preço para o auxílio.
Posso ser tachado de antiquado, purista, careta, sei lá o quê mais, porém fiquei chocado com os comerciais. Se uma criança assistir aos comerciais, poderá entender como normais estas atitudes. Até onde vamos para vender um produto? Será que não é possível estabelecer algum tipo de limite em relação à “criatividade” (não pensem os publicitários que é censura) nessas abordagens? Afinal, para quê serve e onde está o Conar?

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