Por J. A. Moraes de Oliveira
Ele desceu dos céus em um domingo luminoso e depois desapareceu nas nuvens tão velozmente, como um dos meus heróis dos gibis semanais. Era verão na fazenda de meu avô Patrício Vieira de Moraes e eu andava fascinado pelos animais que habitavam ares, matos e coxilhas.
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A estória do Capitão Justo começa quando um dos meus tios volta de Tapes e entrega um telegrama para meu avô. Naqueles tempos, telegramas eram uma raridade, um acontecimento. Quase sempre portavam más notícias – doença grave ou morte.
Mais curiosos do que apreensivos, espiávamos da porta da cozinha, o momento em que o avô Picurra rasgava o envelope amarelo e abria o telegrama. Seus olhos azuis se iluminaram e êle anunciou que a fazenda estava por receber ilustres visitantes, que chegariam dos céus.
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Nos entreolhamos aturdidos, enquanto minha avó Ana Augusta voltava tranqüilamente aos seus afazeres, com o ar de quem conhecia muito bem as tiradas de meu avô, quando ele se divertia fazendo as pessoas arderem de curiosidade.
Interroguei minha mãe, mas não obtive nada de volta. Ela sorriu, ajeitou meu cabelo e foi ajudar a tia Vieira a preparar o doce de abóbora, que fervia em um panelão no fogão a lenha, perfumando a casa inteira.
Corri com meus primos até o terreiro dos cinamomos, bem a tempo de ver o avô ordenar ao negro Edu roçar a grama na grande várzea, em frente da casa. Continuamos rondando meu avô, ardendo de curiosidade, mas morrendo de medo de perguntar o que estava por acontecer. Ele parecia divertir-se com aquele grupo de meninos atarantados que o seguia para um lado e outro.
Os tios Alvinho e Deoclécio se aproximaram e confabularam com meu avô. Foram até a beira do campo e apontaram para os limites da várzea, olhando as nuvens no céu impecavelmente azul.
Depois, cada um foi para um lado cuidar dos preparativos, enquanto o grupo de meninos se encarapitava na cerca da mangueira, tentando imaginar os acontecimentos que estavam por vir na fazenda do Passo Grande.
No dia seguinte, parte do mistério foi decifrado quando minha mãe disse que um grande churrasco de carne de ovelha fora marcado para o domingo. A animação tomou conta do grupo de meninos, que corriam para um lado e outro, acompanhando alegremente a movimentação dos adultos.
Um de meus primos mais velhos sugeriu uma travessura – fugir até um dos potreiros para ver as ovelhas apartadas do rebanho para serem carneadas na madrugada. As meninas se recusaram a participar, mas eu me juntei ao grupo, tentando mostrar um sangue frio que não sentia.
Nos apertamos junto à cerca, admirando as duas ovelhas. Parecia que sabiam estar condenadas, devolvendo nossos olhares curiosos com balidos de cortar a alma. Senti um aperto no estômago e fiz uma promessa silenciosa a mim mesmo: não tocar em nenhum pedaço de carne no dia seguinte.
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O domingo chegou e o sol ainda no horizonte encontrou meu avô e meus tios em suas melhores bombachas, mateando à beira do campo. Observavam a grande várzea, onde estacas com bandeirolas amarelas e vermelhas haviam sido fincadas, acompanhando o traçado da cancha reta.
Algum tempo depois, um grande grupo estava reunido e minha mãe me levou até um ponto avançado, de onde se podia ver a várzea em toda a sua extensão.
De repente, todos ergueram as cabeças, com os olhos voltados para os lados da Lagoa dos Patos, de onde se ouvia o som crescente de motores. Em um instante, dois aviões militares passaram em vôo rasante sobre o grupo. Ergueram-se no céu sem nuvens, fizeram um grande círculo e voltaram, pousando suavemente no campo da várzea.
O coronel Picurra e meus tios se adiantaram para receber os aviadores. Eles se apresentaram formalmente, fazendo continência. E todos bateram palmas quando meu avô apresentou os dois pilotos da Força Aérea Brasileira.
Eram o Capitão Justo e o Tenente Assis.
Foi assim que fiquei sabendo que a fazenda do Passo Grande era um campo de pouso emergencial, usado pelos aviões militares que faziam patrulha na zona da fronteira.
O churrasco foi servido à sombra dos cinamomos, com os aviadores no centro da mesa, junto a meu avô e a meus tios mais velhos. As mulheres na mesa ao lado cochichavam baixinho, comentando o grande acontecimento com vizinhos e visitantes, enquanto as crianças mal tocavam na comida, excitadas com a promessa de que mais tarde poderiam ver de perto os aviões pousados na várzea.
Depois de algum tempo, os pilotos se despediram. Colocaram suas toucas de couro e decolaram, fazendo um vôo rasante sobre a casa. Em segundos, eram dois pequenos pontos que desapareceram no céu dourado da tarde.
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Aos poucos, todos voltaram para a sombra dos cinamomos, onde os assadores haviam colocado novos espetos no fogo. E grandes pedaços de carne voltaram a ser servidos, enquanto se comentava a visita dos aviões de guerra.
Me dei conta que estava faminto. Comi dois grandes pedaços de carne, completamente esquecido de minha promessa do dia anterior.
Mas meu sentimento de culpa não durou muito. Um grande panelão com doce de abóbora foi trazido da cozinha e recebido com aplausos entusiasmados de crianças e adultos.
O sol deitava-se atrás dos eucaliptos, lançando longas sombras sobre o campo, onde os peões retiravam as bandeirolas amarelas e vermelhas.

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