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Cavalos no Porão

Por J. A. Moraes de Oliveira Cheguei a Veneza com o propósito de desbravar os mistérios de sua arte e de sua história. Depois …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Cheguei a Veneza com o propósito de desbravar os mistérios de sua arte e de sua história. Depois de uma cansativa semana, assistindo filmes publicitários no Lido, pretendia ir em busca da mítica cidade de Thomas Mann, Lord Byron e de tantos poetas e escritores que ali viveram e morreram.

Mas, já no primeiro dia, uma decepção me aguardava: os incomparáveis cavalos de bronze haviam sido retirados do alto da Basílica de San Marco.

Em seu lugar, quatro clones perfeitos – os cavalos originais estavam sendo restaurados para viajar em seu primeiro “tour” pelos maiores museus do mundo.

“Uma vida seria insuficiente para conhecer os mistérios das igrejas e palácios dourados de Veneza”, escrevera Lord Byron. Ele sabia do que falava: os tesouros, lendas e fascínios dessa cidade são inesgotáveis e, a cada nova visita, surpreendem como se fosse a primeira vez.

Um dito local explica estes mistérios, ao definir a diferença entre um turista e um viajante: o turista, assim que chega a um local, quer voltar para casa.

O viajante, assim que chega a Veneza, deseja ficar para sempre.

A história dos cavalos de bronze é uma das mais fascinantes. Tudo teria começado com o roubo do corpo do evangelista São Marcos, no ano de 828 em Alexandria, por dois mercadores venezianos. Quando o corpo do evangelista chegou a Veneza, um anjo desceu dos céus, acompanhado por um leão alado, e proclamou: “A Paz esteja contigo, Marcos”, determinando assim que aquele seria o local escolhido para o repouso do santo. Que se tornou o patrono da cidade e o leão alado, seu símbolo heráldico.

São Marcos foi enterrado no Palazzo Ducale, enquanto uma igreja era construída especialmente para abrigar seus restos. Através dos séculos, incontáveis reformas e reconstruções a transformaram em uma portentosa basílica, demonstrando o poder e o orgulho da República Veneziana. Mais tarde, em 1204, quatro cavalos de bronze – quase únicos exemplares da antiguidade grega – foram removidos do Hipódromo de Constantinopla pelo dodge Enrico Dandolo e instalados no alto da basílica, para honrar o santo evangelista.

Em 1797, Napoleão Bonaparte declarou o fim da República Veneziana e vendeu a cidade para Viena, mas antes, removeu os cavalos e colocou-os no alto do Arco do Triunfo em Paris, para celebrar sua campanha da Itália. Com a queda de Bonaparte, os cavalos voltaram para Veneza e 200 anos depois enfrentaram uma nova ameaça: os gases tóxicos das indústrias que se instalaram ao redor da laguna.

Finalmente, depois de restaurados e exibidos ao redor do mundo, os bronzes seriam exilados no interior da Basílica, longe da poluição e dos olhos dos turistas e visitantes apressados.

Durante o festival de cinema, eu conhecera Giulio Marconi, um veterano publicitário veronês, doublê de guia de turismo e que dizia conhecer todos os segredos da cidade. Giulio afirmava que Veneza era uma velha dama recatada e decadente, que não revela facilmente seus encantos. E que eu, para conhecer a cidade, deveria me aventurar por seus labirintos e canais interiores, fugindo da obviedade dos roteiros turísticos.

Para começar, ele me demoveu de ir beber um Bellini no “Harry”s Bar”, naquela mesa de janela, onde Ernest Hemingway tomava seus pileques. E, estranhamente para um publicitário, sentenciou: “Não tem nada a ver com Veneza – é apenas um belo truque de marketing para atrair turistas norte-americanos”.

Assim, passamos ao largo do “Harry”s” e às oito horas da manhã seguinte estávamos em uma gôndola a caminho do mercado do Rialto, onde os donos dos bons restaurantes se abastecem de peixe fresco da laguna para o cardápio do dia. Depois de percorrer demoradamente as bancas, admirando peixes, crustáceos, especiarias e uma incrível variedade de ingredientes, fizemos uma demorada escala em um “cichetti”, um dos pequenos barzinhos do Rialto, onde os venezianos comem sardinhas e polvo frito, preparando-se para a hora do almoço.

Nossa próxima parada foi a “Osteria ai 40 Ladroni”, em Cannaregio, para um bianco do Friuli e um linguado com manteiga negra e alcaparras. Fiquei com a vaga impressão que eu já havia visto aquele mesmo linguado em uma banca do Rialto.

A receita veneziana de Giulio para conhecer Veneza era simples: comer e beber muito bem e depois se lançar pelas vielas e canais da cidade.

Meus dias seguintes foram recheados de descobertas, graças ao permanente encantamento de Giulio por Veneza. Fui apresentado a igrejas, museus e “palazzos” que não figuram nos guias turísticos. Visitei as ilhas da laguna, onde é possível encontrar pinturas de Bellini e Tiepolo ou belos mosaicos do século XII em remotas igrejas bizantinas e românicas.

Graças à receita de Giulio, descobri também que a melhor comida veneziana está nos pequenos restaurantes das ruelas do Rialto, Cannaregio ou San Polo, longe do Grande Canal. E que os vinhos brancos do Lago Garda são a melhor escolta para um prato de pescado.

Uma semana depois, com um último olhar para as cúpulas douradas de San Marco, me despedi de Veneza e de Giulio e segui para o sul, através das colinas da Toscana.  Quando cheguei ao aeroporto de Roma, demorei muito tempo para achar o local de entrega dos carros alugados. Ficava exatamente do lado oposto da auto-estrada – lógica romana, claro.

A caminho do terminal, notei uma movimentação inusitada de motocicletas e carros da polícia. Susto maior foi quando vi na pista o 747 que me levaria a New York. Ele estava cercado pelas Alfa da polícia e por uma multidão de  carabinieri. O embarque demorou várias horas e quando decolamos, o belo crepúsculo romano tingia os céus de vermelho e amarelo. Ciao, Italia.

Acordei na manhã seguinte com o perfil de New York envolto em brumas.

O avião taxiou lentamente e parou longe do terminal, sendo logo cercado por carros da polícia e por caminhões blindados da Brinks. O piloto saudou os passageiros, informou sobre a temperatura, mas não disse uma palavra sobre o cerco policial que acontecia na pista do aeroporto.

O desembarque foi lento, com as bagagens de mão revistadas uma a uma. Três horas depois, eu estava no táxi, enfrentando o trânsito lento a caminho de Manhattan. O motorista paquistanês aceitou a sugestão de desviar pelas pontes ao norte da ilha e em breve estávamos chegando ao Central Park.

Na fachada do Metropolitan, imensas bandeiras com as cores italianas anunciavam uma inédita e histórica exposição: os cavalos de San Marco.

Então percebi que minha viagem pelos mistérios de Veneza ainda não terminara. No dia seguinte, eu estaria de volta ao Central Park para reencontrar os quatro cavalos de bronze – que haviam viajado comigo no porão do 747.

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