Por J. A. Moraes de Oliveira Na última vez que encontrei o professor de Salamanca descobri que o inusitado personagem havia desenvolvido um novo talento. Mas, ao contrário de suas outras faculdades extraordinárias, esta não havia sido provocada pela chuva de estrelas que – segundo ele – desabara sobre sua cabeça em Santiago de Compostella.
Desta vez, tratava-se de algo inofensivo mas difícil de compreender e bastante bizarro. Eu já sabia que o professor passava a maior parte do ano viajando de um lado para outro do mundo. E, como acontece com os viajantes freqüentes, acabava extremamente estressado depois de longos vôos e de intermináveis filas em aeroportos superlotados.
Num certo dia, ele me revelou que havia encontrado a receita perfeita para superar estes desconfortos da vida moderna. Quando se sente exaurido, após uma cansativa viagem, ele não pede ao concierge do hotel uma massagista tailandesa ou uma garrafa de scotch.
O professor de Salamanca passeia em cemitérios.
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Assim ele descreve sua fórmula: procurar um cemitério antigo, daqueles povoado por mortos ilustres. E escolher um dia chuvoso, com muita neblina, pois a coisa não funciona com sol e céu azul.
O professor jura por todos os duendes que não existem aborrecimentos que resistam a um vagaroso passeio pelas alamedas de um campo santo, com ciprestes ondulando ao vento outonal.
Seu cenário predileto é o Père Lachaise, em Paris, mas logo se aborreceu com as invasões de turistas. Aderiu à arte funerária italiana e se tornou um assíduo freqüentador dos cemitérios monumentais de Milão e Gênova.
No Lachaise, o professor passava horas em busca de mausoléus dos grandes do passado. E quando encontrava os locais de descanso de Marcel Proust, Sarah Bernhardt ou Fréderic Chopin, fazia uma reverente e prolongada pausa debaixo da chuva.
Agora, em suas visitas aos cemitérios monumentais da Itália, ele pratica outro exercício. Se embevece diante da estatuária das belas ninfas semi-nuas e dos soberbos anjos cabisbaixos.
Nestes momentos de reflexão, o professor gosta de acariciar a superfície gasta dos mármores de Carrara, enquanto recita estâncias inteiras de Dante Alighieri.
Ele me olha de frente, limpa as gotas de chuva do rosto e garante que o mais eficiente tranqüilizante que jamais experimentou é o contato com ninfas e anjos patinados.
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Esta extravagante terapia me deixou intrigado, mas deixei o tema de lado, pois já estou habituado às excentricidades do professor. Mas, semanas depois, uma greve de pilotos franceses congestionou os aeroportos e meu vôo foi obrigado a fazer uma escala forçada em Viena.
Que é uma das mais adoráveis cidades européias, mas turismo era a última coisa que eu precisava durante uma exaustiva viagem de trabalho.
A companhia aérea me encaminhou para um hotel do qual nunca ouvira falar. Na manhã seguinte, abro a janela e descubro um imponente cemitério a meus pés.
Ao reclamar, sou informado que meus aposentos eram um dos mais procurados e caros do hotel. Justamente por sua vista privilegiada para o Schubert Park, o mais belo parque de Viena, onde estavam enterrados compositores famosos.
E não fui poupado de um comentário de gosto duvidoso:
” – Mein Herr, posso garantir que nossos vizinhos são muito tranqüilos.”
No guia da cidade, descobri que os tais vizinhos eram Franz Schubert e Ludwig van Beethoven.
Era a oportunidade perfeita de testar a receita do professor de Salamanca e seus efeitos sobre minha crescente ansiedade. Pois a greve continuava e a companhia aérea não informava quando os vôos seriam retomados.
Uma chuva fria de outono molhava as ruas e a neblina vinda dos Alpes ocultava por completo os ciprestes do Schubert Park.
Atravessei a avenida e entrei no cemitério.
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Pelos caminhos silenciosos, lembrei-me das muitas lendas sobre os personagens que compuseram sinfonias imortais e morreram em Viena. Uma delas conta que Franz Schubert delirava na noite de sua morte, imaginando ter sido enterrado vivo ao lado do amigo Beethoven, que morrera um ano antes.
As palavras foram entendidas como seu último desejo e Schubert foi sepultado junto a seu mestre. Quando o velho cemitério Wahringer foi demolido, as duas sepulturas foram preservadas e um grande parque, com um bosque de ciprestes, foi construído no entorno.
Procuro a tumba de Beethoven – encimada por um simples obelisco de mármore branco, lavado pela chuva. Na tarde de 26 de março de 1827, uma grande tempestade desabou sobre Viena. Caiam relâmpagos assustadores, quando Beethoven ergueu o punho para o céu, em um último gesto de desafio.
As palavras finais da oração fúnebre em seu enterro soaram como um epitáfio:
“Ele retirou-se do convívio das pessoas depois de ter dado aos homens tudo o que tinha e nada ter recebido em troca.”
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Saí do cemitério com os acordes da “Ode a Alegria” em minha cabeça. Lentamente, meu stress se dissolveu, como que lavado pela água da chuva.
No hotel, um recado da empresa aérea: os vôos haviam sido normalizados e eu devia correr para o aeroporto.
Fiz a mala e arrisquei uma última olhada para o Schubert Park. A chuva cessara, o nevoeiro desaparecera e os céus de Viena começavam a clarear.

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