Quando Arthur C. Clarke disse: “Existem duas possibilidades: ou estamos sozinhos no Universo, ou não. Ambas são igualmente aterrorizantes”, ele não estava errado, mas, claro, na dúvida, sempre se pode criar uma terceira opção e, assim, nasce o desejo de ter um Metaverso para chamar de seu!
Não faço a afirmação como forma de crítica, muito antes pelo contrário. Acho extremamente relevante que todos tenham a capacidade de criar um outro mundo. Não fosse isso, Stephen King não seria o autor com a posição de 9° escritor mais traduzido do mundo, e algumas das séries e livros que mais embalaram nossa vida não teriam chegado até nós.
O que envolve a minha mente, como um misto das perguntas feitas aos seis anos de idade, na famosa fase dos porquês, é como viveremos experiências no Metaverso. Não me refiro à capacidade de presenciar a realidade proposta ali, mas, sim, ao momento em que o indivíduo se afasta de relações pessoais e das conexões necessárias ao desenvolvimento da empatia, do respeito e da boa convivência.
Sou um apaixonado por inovação, tecnologia, design e absolutamente tudo que nos permite novas experiências. Acredito que temos de ter cada vez mais processos evolutivos, sem perder a essência da alma. Aliás, conforme disse Dror Benshetrit, em entrevista à Bruna Suptitz, no Jornal do Comércio: “Você vai me ouvir falar sobre inclusão da natureza, o valor do design não apenas centrado no ser humano, mas para a vida num todo, por entender que somos parte da biodiversidade da natureza”, podemos compreender a essência e a necessidade do convívio humano da integração com seu meio ambiente, em resumo uma vida saudável.
E reside nessa visão de integração e de proximidade, a alusão à claustrofobia do Metaverso, onde um indivíduo possa ficar preso a relações não reais, ficar limitado à ilusão de uma vida não legítima. Já estamos hiperconectados e agora estamos encontrando outras formas de potencializar isso, e há quem achava que isso não seria possível.
Ter experiências que desenvolvem o intelecto, a construção da criatividade, é essencial para que possamos, inclusive, nos tornarmos mais disruptivos, mais inovadores. Ou seja, abraçar uma árvore, colocar o pé na grama ou comer bergamota no sol é tão essencial como compreender os processos de ideação de um novo app ou investir em criptomoedas.
Se você me perguntar se eu gostaria de estar em uma reunião no Metaverso com Simon Sinek para discutir o Golden Circle, eu te diria: claro que sim! E isso seria uma experiência memorável. Mas nunca substituiria o desejo de falar frente a frente ou a quantidade de vezes que assisti ao conhecido vídeo dele no TED, pelo YouTube. Porém, se uma experiência no Metaverso me permitir, hoje, ouvir Queen em um ambiente onde eu possa tirar uma selfie com o Freddie Mercury, que me traga uma experiência real incrível, eu a quero, e a quero muito!
O que quero te dizer com isso é que podemos desbravar qualquer fronteira, ser visionário desmedidamente e disruptivo por essência, mas, se porventura, deixarmos de lado o mais humano de tudo o que fizemos, nada vale tão a pena assim. E o libertador poderá se tornar tão asfixiante quanto ficar preso no elevador sem luz, às 21h30 de uma sexta-feira, véspera de carnaval, e sem bateria no celular.
Ricardo Gomes é voluntário no Movimento Pacto Alegre, como head de Comunicação.


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