Por Antonio Manoel de Oliveira Eu também faço questão de falar sobre o Cândido Norberto.
Eram tempos difíceis. Para um grupo de acadêmicos de jornalismo que estava entrando na faculdade (Famecos-PUC) em 1967 era uma aventura participar de um programa de debates na televisão, ao vivo, na primeira vez em que entrava numa emissora para conhecê-la por dentro. Quando chegamos, Cândido Norberto mandou que todos fossem para o estúdio, pois o programa era sobre um tema polêmico, a pena de morte, e ele queria que a gente desse nossa opinião.
Entramos no estúdio da TV Gaúcha cheios de medo. Nos acomodávamos nas cadeiras para participar do programa quando, no intervalo comercial, Cândido perguntou quem gostaria de se manifestar a favor da pena de morte, já que todos os participantes eram contrários. Alguém para polemizar. Diante da negativa geral, ele insistiu, me apontou e sugeriu, com aquela matreirice da qual era difícil de se escapar. Me convenceu a interpretar aquele papel.
Acontece que naqueles dias eu estava traumatizado com a morte do meu companheiro e amigo Nelson Pulgatti Moreira, delegado de Polícia que fora assassinado por um ladrão de galinhas
Nelson fora meu companheiro de escritório na fábrica de camisas Bier & Hoechner, na Estrada do Forte, 171, na Vila Ipiranga. Fizemos vestibular juntos. Eu para Jornalismo e ele para Direito e Jornalismo. Passou nos dois, mas frequentou por pouco tempo a Famecos, envolvendo-se pelo Direito, que tomou conta da sua vida. Era, como eu, de origem pobre e ajudava a sustentar a família, pois havia perdido o pai.
Tomado pelo sofrimento que vivia com a recente morte do meu amigo, fiz um emocionado discurso em favor da pena de morte e citei o caso do assassino do Nelson Pulgatti como exemplo de um bandido que merecia a cadeira elétrica. Interpretei meu papel com tanta convicção, que choveram os telefonemas para o estúdio (o programa era interativo) e a estúpida aprovação da pena de morte disparou na contagem.
Cândido e a produção corriam para lá e para cá, nervosos, e a gente, dentro do estúdio, não sabia o que estava acontecendo. É que a ordem da direção (do “seu” Maurício Sirotsky Sobrinho, claro) era que, naquelas circunstâncias (em plena ditadura militar, com os milicos largando fogo pelas ventas), não era recomendável que a pena de morte ganhasse nos votos dos telespectadores (me perdoem, mas esqueci o nome do programa, também, tanto tempo, né…).
A solução encontrada foi sensacional. A produção ligou para um convento (se não me engano, em Viamão) para saber se estavam vendo o debate lá. A informação foi positiva. Então, o produtor perguntou quantas internas havia lá e qual era a posição delas sobre a pena de morte. A resposta foi de que eram 220 (se não me falha a memória) e todas eram contra a pena de morte. E foi assim que Cândido anunciou no encerramento do programa que a população havia se manifestado contra a pena de morte por tantos votos a tantos votos, somados, claro, os 220 das bondosas freirinhas. Saí aliviado.
(OBS: O produtor do programa chamava-se Glênio Peres, que Maurício havia contratado, mas cujo nome não podia aparecer, caso contrário, teria que arcar com as consequências. E, naqueles tempos bicudos, sabe-se lá quais seriam…)
Depois, a vida me levou a ser um dos integrantes das primeiras (acho que foi a primeira) equipes do programa Sala de Redação, com o Carlos Bastos na chefia e o poeta Luiz de Miranda como companheiro de produção. Como chovia interessados (pessoas que ligavam querendo participar do programa, que era a coqueluche do rádio gaúcho) e o próprio Cândido levava convidados (sem avisar), e que muitas vezes já chegavam com ele ao estúdio na redação de Zero Hora, a mim e ao Miranda cabia a terrível tarefa de reescrever notícias curiosas que saiam nos jornais do Rio e São Paulo, ou que chegavam pelas agências de notícias, para o Cândido ler durante o programa.
Acontece que a gente escrevia uma média de dez notas por dia e, geralmente, o Cândido não lia nenhuma delas. Ficava conversando, metia os entrevistados nos seus reclames publicitários, o mais famoso era o do uísque da garrafa vazia. Como o nosso trabalho não funcionava, reclamamos para o Bastos, e passamos, eu e o Miranda, a escrever só umas duas notas por dia, e pôr em cima das outras que tinham sobrado do dia anterior, que selecionávamos, e passar para o Cândido. Logo ele descobriu. Então, era comum que metesse o braço sobre o ombro de cada um de nós e caminhasse pela redação, tentando se justificar, mostrando como deveríamos escrever “com molho” para que ele pudesse aproveitar. Tudo conversa. Chegava na hora, em vez de ler os nossos textos, ele contava um “causo” e entrava logo na próxima entrevista que estava na fila.
Eram tempos em que o Sala de Redação começava às 11h (ou 11h30min?), com uma primeira parte de entrevistas sobre assuntos gerais e depois entrava no Esporte, que era a parte final. Era raro o dia em que não comparecia um secretário de Estado, um deputado, um senador, o Governador ou um ministro de Estado para conversar com o Cândido.
A última vez em que nos encontramos, num supermercado da Avenida Getúlio
Vargas (ou no Shopping Praia de Belas?), ele passou o braço sobre o meu ombro e ficou relembrando histórias. Demos boas risadas.
Foi assim que conheci e me tornei admirador desta figura maravilhosa.

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