Por Antonio de Oliveira
“Aquilo que é impenetrável para nós existe de fato. Por trás dos segredos da natureza há algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração a essa força que está além de tudo o que podemos compreender é a minha religião.”
Alguém me mandou outro dia este texto que eu acabei enviando para as minhas filhas. Faço sempre isto, quando recebo alguma coisa que acho interessante. O pensamento é de Albert Einstein. Pois uma das minhas filhas deu retorno. Achou incrível (já que não é bom dizer aqui o que ela realmente escreveu, senão vocês vão achar que ela não é bem educada).
Realmente é uma maneira de dizer que acredita em “Deus”, como algo superior e intocável, sem cair na esparrela armada pela igreja católica, apostólica e até romana. Também estou nesta do Einstein, embora meu passado me condene, como acontece com muitos.
Puxei este assunto depois de ver o filme Amor, um doloroso desfile de compreensão, de amor, de desespero e de revolta com a maneira como ficou definido que deveria ser o fim das pessoas. Com minha idade já avançada, digamos, saí do cinema arrasado, mas também revoltado comigo mesmo, por ter ido ver o filme, já que sabia de antemão que era aquilo que iriam me servir, me mostrar. É duro. Cruel. Real. Humano. Desumano. Tudo.
Deus deu ao fim dos seres humanos uma solução nada inteligente, a não ser que ele desejasse mesmo pôr alguns a sofrer para pagar pelo que (eles ou outros) fizeram em vida. Pode ser. Qual a graça que ele achou em deixar um ser humano ficar penando sobre uma cama, sem saber o que está falando, o que está pensando, o que está comendo e para que está vivendo ?
Acho que contrariar esse Deus em alguns momentos é necessário e importante. Lembro isto para dar força à decisão do ator Walmor Chagas, por exemplo, que, aos 82 anos, achou que estava na hora de parar. Passou seu último dia como se nada estivesse planejado, brincando com as pessoas, mostrando que tudo estava normal, como se fosse um dia qualquer. E puuuuum!!!!!!!!! Ele mesmo já tinha avisado que não iria incomodar ninguém e que quando visse a coisa muito ruim “iria embora”. E foi.
Há sofrimentos que nem o maior amor da face da terra justifica. É duro de dizer e escrever isto, mas a vida real não nos deixa escolha. Pôr fim à vida é um extremo de covardia e de coragem ao mesmo tempo, mas, às vezes, a vida (ou Deus ?) deixa as pessoas embretadas, sem opções.
Nestas horas só há uma saída. Como neste mundo há tantas injustiças, por que o dedo que aperta o gatilho, a força que garante o salto no escuro, o mergulho nas águas profundas, não pode também ser o d`Ele? Por que não pode ser o empurrão para encontrar a Justiça d`Ele? Sempre tive dificuldades de enfrentar estas coisas, a não ser minha visceral contrariedade à pena de morte e a qualquer tipo de violência contra homens e animais.
Não sei como alguém como eu, que não tolera qualquer violência física contra homens e animais, queda brando na hora de avaliar a autoflagelação do ser humano. Admitindo a morte por iniciativa do dono da vida a ser sacrificada. Um momento de fraqueza? Por que não um momento de coragem? Por que a morte praticada por outra pessoa não pode ser aceita e a autoexecução sim?
Por que as mesmas vozes que se levantam para defender o uso do corpo que é seu para o que quiser, ter filhos ou não, fazer aborto, rasgar aquelas tatuagens horríveis, botar aqueles brincos horrorosos, não se levantam igualmente em manifestação a favor de determinar inclusive a hora em que tudo deve/pode terminar? Afinal, é ou não o pôr fim do corpo que é seu?
Nós, jornalistas, aprendemos a vida inteira que não devemos divulgar casos de suicídio, mas como vamos continuar em silêncio se a praga aumenta no mundo inteiro. E mais terrível, no Brasil. E mais terrível ainda, no nosso Estado?
Coisas para se pensar. E se você não quiser pensar, por favor, não vá ver o filme Amor.

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