No imaginário popular, institutos de pesquisas fazem contas de chegada à medida que o dia de uma eleição se aproxima. Funcionaria assim: ao longo dos meses, as pesquisas manipulariam dados para não deixar muito na frente um candidato que não querem eleito. Na hora da votação, porém, para não pagar mico, ajustariam as previsões. Aliás, instituto de pesquisa diz que faz fotografia de um momento, não previsões. Salvo quando acerta. As pesquisas para a eleição presidencial deste ano têm chamado a atenção pela monotonia: Lula na frente, Jair Bolsonaro correndo atrás, os demais quase fora do visor. Mais do que isso, boa parte do tempo Lula aparece em condições de ganhar no primeiro turno. As chamadas dos jornais, contudo, raramente estampam essa possibilidade, como se, apesar do antibolsonarismo explícito e justo da maioria, houvesse certo constrangimento em destacar a posição do primeiro colocado.
Na reta final, porém, já aparecem manchetes como esta do UOL: “Contra possível derrota no primeiro turno, Bolsonaro intensifica campanha”. A mídia, termo usado pela esquerda com entonação de desprezo, exceto quando é favorecida, gostaria de ver a terceira via no poder. Só que a terceira via jamais entrou na pista, nunca decolou e come poeira na estrada da vida eleitoral. Por mais que imortais do colunismo nacional, como Merval Pereira, insultem a polarização, os eleitores permanecem divididos entre o ex-presidente e o ex-capitão.
Alguns apostam que o voto útil reduzirá os eleitores de Ciro Gomes a meia dúzia de gatos pingados. O mesmo pode acontecer com os simpatizantes de Simone Tebet, embora, sendo eles provavelmente menos à esquerda que os do pedetista, a migração possa levar água para a horta de Bolsonaro também. Por que os jornais não estamparam chamadas dando Lula vencedor no primeiro turno nas vezes em que isso seria correto do ponto de vista das pesquisas?
Se pesquisas não garantem nem preveem resultados e representam informação a que os eleitores têm direito, certamente induzem a trocar de candidato quando se vê que o preferido irá dar com os burros n’água e um oponente indigesto poderá ser eleito. Até agora, votos em Simone Tebet e em Ciro Gomes ajudam Jair Bolsonaro, pois talvez levem Lula a não ter o escore necessário para ganhar no primeiro turno. Não é, porém, o que indicam os diversos institutos. Na comparação das muitas pesquisas, Lula está com a mão praticamente na taça. Quanto mais o Dia D se aproxima, maior a possibilidade de que, fazendo as contas, eleitores mudem de derrotados potenciais para evitar aquele que lhes parece mais indigesto. Como os jornais deverão explicitar cada dia mais essa perspectiva, maior a possibilidade de ela acontecer.
Nestas alturas do campeonato de pontos corridos a distância, salvo grande reviravolta ou interferência do VAR, vai ficando muito difícil de ser suprimida. Não é questão de gosto. Bate o desespero em uns, aumentam as declarações polêmicas, cresce a baixaria, todos os golpes são validados, o Centrão já se mexe para a esquerda, os neutros descobrem súbitas inclinações, tudo se move, ainda que, nas pesquisas, tudo pareça bastante consolidado. Até as manchetes dos jornais passam lentamente a mudar de tom, de tamanho, de ênfase, de cor, de percepção.
O jogo, claro, não está jogado e, como diz a sabedoria futebolística, só termina com o apito final. Os bolsonaristas destacam que o capitão de malícias leva multidões às ruas. Os petistas garantem que Lula arrastará multidões às urnas. Nas colunas jornalísticas, uns tentam se manter imparciais; outros, de direita, escancaram o voto, que só os de direita podem, em geral, escancarar opinião na chamada mídia corporativa, especialmente na do bravo Rio Grande do Sul. Se não há conta de chegada, afirmação que deixa parte do eleitorado dubitativo, pode haver manchete de chegada. Afinal, ninguém gosta de errar, de passar recibo de derrotado ou de inutilizar voto.
A esquerda vendeu a ideia de que o mais importante é tirar Bolsonaro do poder para salvar a democracia. A direita insiste que é decisivo impedir Lula e o PT de voltarem ao Planalto. Todo aquele que acredita numa dessas duas verdades opostas fica, se for racional, obrigado a optar pelo voto útil. Ou está jogando contra a própria convicção. O argumento de que em eleição de dois turnos não é preciso fazer voto útil no primeiro acaba por ser um sofisma para favorecer o lado que teme ficar de fora do segundo turno. Não é de duvidar que as manchetes de capa dos jornalões fiquem cada vez mais nítidas até o dia 2 de outubro. A ilusão do segundo turno já não brilha no horizonte. No retrovisor de Lula, Bolsonaro é um ponto ainda visível que poderá ser apagado com uma mínima transferência de votos de candidatos que odeiam o capitão. Se ganhar de 2 a 0, elimina a partida de volta, por que não forçar o ataque para fazer o golzinho matador? O eleitor está na cabine do VAR. Se marcar pênalti, dá o título ao líder da competição.
Sigamos as manchetes para ver a metamorfose dos jornais às vésperas das eleições.
Juremir Machado da Silva é jornalista e escritor.


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