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Conversando com Jacarandás

Por J. A. Moraes de Oliveira Não reconheci a rua e precisei conferir a placa para ter certeza. Era ela mesmo, a velha Rua …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Não reconheci a rua e precisei conferir a placa para ter certeza. Era ela mesmo, a velha Rua Castro Alves. Caminhei lentamente, procurando identificar o local do casarão branco e rosa de uma noite distante.

Lembrava da fileira de graciosos sobrados, com jardins de magnólias e jasmins, perfumando os passeios de fim-de-tarde. Agora são anônimos prédios de apartamentos que se repetem monotonamente. Nas janelas, não há mais casais ociosos observando a rua. E onde estariam as crianças que brincavam de pular sapata nestas calçadas?

Me senti deslocado e meio perdido, um transeunte solitário, buscando vestígios que o tempo apagara. Chego até a esquina da antiga rua Esperança e subo a Castro Alves pelo outro lado. Confiro a numeração, me deparo com um prédio de apartamentos construído há pouco, mas que conservou uma grande árvore no estreito espaço verde da entrada.

Teria sido sido ali que um jovem jornalista participou de um jantar, tantos anos atrás? A dona da casa era aquela elegante senhora, que ajudou em uma entrevista com um maestro alemão. Por muitos anos, guardei a certeza que ela seria a moça que passava pela Vasco da Gama, de volta de suas aulas de piano.

A rua está deserta e silenciosa, apenas se ouve o zumbido das portas automáticas de garagens, se abrindo e fechando para dar passagem a carros com vidros escurecidos.

Não há pessoas andando na rua. Ninguém a quem fazer perguntas.

***

Continuo caminhando até a Ramiro Barcelos, ainda prourando cenários familiares. Um pouco mais e estou na passagem de nível sobre a Vasco da Gama. Os jacarandás sobrevivem, velhos e resistentes, os mesmos que cobriam as calçadas de novembro com suas flores azuis. Mesmo antes de me aproximar, sinto que minha rua não é mais a mesma. Existe uma praça no lugar dos casarões amarelos e os cinco sobrados do lado impar foram demolidos para a construção do acesso ao viaduto.

Passo a mão no tronco de um dos jacarandás, onde estava o sobrado de número 315, em uma placa esmaltada sobre o portão de ferro. Olho para a direita, em direção à Felipe Camarão, e o que vejo não é a rua de hoje, mas um filme, com cores antigas e desbotadas.  

Ali estão as venezianas abertas da casa dos Starosta, de onde vinha o cheiro de peixe frito. Mais adiante, o casarão amarelo de Dona Selma, a viúva de um oficial da marinha mercante, que afundou com seu navio na guerra. O cão policial tinha o mesmo nome do cargueiro – seria Itajuba ou Itabira?

Na esquina, quase consigo ver as letras verdes na fachada branca do “Armazem Vasco”, onde o português Manuel vendia fiado e muitas vezes esquecia de cobrar. Bem ao lado, ficava o pequeno bar de Dona Bertha, mãe do David, que vendia doces mil-folhas amanhecidos, pela metade do preço.

***

Olho para a esquerda da rua e aparece a casa de D. Anita Meneghetti, seguida pelo alto muro de pedras do solar dos Becker. Ainda não existe o viaduto, é possível ver a esquina da Ramiro, onde ventava forte nas manhãs de inverno e que era o caminho do pai, quando voltava para casa nos fins de tarde.

O tempo passou sem que eu notasse e sinto que sou a única pessoa na rua. Devo estar com a aparência suspeita, pois moradores chegam em um carro e me olham de lado, antes de entrar com pressa no prédio, batendo com força o portão.

É melhor ir embora. Não há sentido em ficar aqui, parado sob este velho jacarandá, revendo o que não existe.

***

Subo a rua devagar, como acordando de um sonho que não quero que termine. Antes de chegar à esquina, paro por um minuto, esperando encontrar uma moça, voltando da aula de piano.

Mais abaixo, na calçada do número 315, minha mãe bate fotos enquanto meu pai sorri e eu olho para o chão, inconsciente daquele momento de pura felicidade.

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