Por Pedro Macedo Dia desses, precisei pegar um táxi. Há muitos anos não fazia isso, conseqüência de possuir carro (não tenho mais) e, mais recentemente, da peladura(*) geral que atingiu a classe média. Pois bem, era noite, estava escuro, meu astral (fruto, evidentemente, da minha peladura permanente) não andava lá essas coisas e fiz o que costumo fazer nessa e em outras situações em que preciso invadir espaço dos outros: abri a porta do carro, olhei para o motorista e perguntei “com licença”?
Não imaginava o efeito da simples utilização de uma expressão de cortesia tão comum. O taxista desmanchou-se todo. Disse que trabalha há 30 anos naquele ponto perto do Banrisul da Tristeza, bairro muito alegre e acolhedor, apesar do nome e que, nesse tempo todo, não lembrava de outra oportunidade em que alguém lhe tivesse pedido licença para entrar no seu táxi. Também fiquei meio assustado com o comportamento do taxista.
Preocupado mas feliz. Afinal, ali estava uma pessoa valorizando uma atitude que, para mim, era natural. Fiquei sentindo-me um sujeito diferente. Expressões de cortesia cabem em qualquer lugar. Desde aquela batida na porta do quarto do filho até o “obrigado” se alguém segura uma porta para te deixar passar. Coisa corriqueira na minha vida.
No dia seguinte, quando voltei a pensar no assunto, comecei a observar o comportamento das pessoas em geral. No centro da cidade, por onde tenho passado com muita freqüência, é um horror. Ninguém pede desculpas nem pelos encontrões evitáveis. Multidões não costumam preocupar-se com indivíduos e esta é uma verdade da qual só agora tomo consciência.
Imagino que cada um daqueles seres humanos pelos quais cruzo no centro de Porto alegre tem os seus problemas. Tenho os meus também. Do meu ponto de vista, são imensos, quase insuportáveis, às vezes me deixam triste, às vezes desesperado e, com freqüência demasiada, me fazem derramar algumas lágrimas no travesseiro. Nada, porém, que me tire o respeito pela raça humana em geral e por cada uma das pessoas em particular.
Volto ao centro, então, para desfilar meu orgulho entre aquela gente sofrida e pouco preocupada com atos de cortesia que deveriam – só deveriam, não é obrigatório – estar presentes nas relações humanas. Fico com a impressão de que a raça está se embrutecendo. De minha parte, só me entrego com o último suspiro.
Viva a cortesia!
(*) Falta de dinheiro

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