Por Cibele Haas*
Chegou o calor na clássica e moderna Barcelona. É a cidade perfeita para oferecer um evento de tal porte cultural como o Fórum Barcelona 2004. Gente de todas as raças, nações e religiões desfrutam ao mesmo tempo de diferentes formas de arte e lazer. Dança, teatro, música, festas, espetáculos circences, debates, exposições, artes arcaicas, renascentistas e modernas sao apreciadas por toda a cidade. Durante cinco meses, a capital de Catalunha respirará a cultura vinda dos quatro cantos do mundo. Artistas de todo o planeta passarão pelo Fórum, apresentando e discutindo novas formas de diversão e entretenimento.
E o Brasil não ficou de fora. Ao contrário, é um dos países que mais atrações está trazendo e ainda vai apresentar-se durante todo o evento. Não só os espanhóis, mas toda Europa adora os brasileiros. Nessas duas primeiras semanas do evento, os nossos artistas participaram intensamente em diversas programações do Fórum. Apenas no Carnaval de rua, apresentado por Carlinhos Brow, no último dia 15, foram mais de 400 mil pessoas. Crianças, jovens, adultos e muitos veteranos pularam ao som do músico baiano. Mas, muita gente que nunca tinha ouvido falar em trio elétrico, se confundiu com o carnaval do Rio de Janeiro, e pensou que haveria também desfile carros alegóricos e fantasias. Ainda assim, não imaginaram a festa que fariam os brasileiros ao ver um grande ídolo de nossa terra tocar gratuita0mente no Passeo de Grácia, uma das avenidas mais centrais de Barcelona.
Apesar da grante festa que fez Carlinhos, muita gente optou em ver o show de Gilberto Gil, que se apresentava no mesmo dia, na sede principal do Fórum. Em duas noites, nove mil pessoas assistiram com grande admiração o espetáculo apresentado pelo ministro brasileiro da Cultura. Quem também se destacou foi Paulo Coelho, um dos escritores mais lidos na Espanha. Ele participou de um debate com o espanhol Suso de Toro e com o poeta mexicano Homero Aridjis e propôs uma maior comunicação oral entre as pessoas e não tanto através da internet e da televisão: “As principais lições que tive na vida eu não aprendi nos livros, e sim conversando e escutando gente do campo, taxistas, pessoas simples, que ensinam grandes lições. A sabedoria não se encontra na elite cultural, mas sim nas pessoas que têm uma verdadeira conexao com a vida”, disse Coelho.
A pesar dos últimos escândalos protagonizados pelo governo brasileiro, que são bastante destacados nos jornais de Espanha, Lula continua tendo boa imagem na Europa e participará de um debate sobre “Pobreza, microcrédito e desenvolvimento”, em julho. Outras personalidades internacionais que estarão por aquí serão o russo Mikhail Gorbachov, que discutirá sobre desenvolvimento sustentável, o português José Saramago e o francês Alain Touraine.
Mas, na verdade, o que realmente está interessando ao público são os espetáculos e as impresionantes exposições que a cada dia são exibidas em toda cidade. Um dos temas principais do Fórum é propor condições de paz, e para isso foram criadas diversas exposições com obras realizadas por artistas que viveram diretamente em guerras e conflitos. Documentários, filmes, fotografias e objetos diversos fazem parte das mostras que revoltam os sentimentos do público. Em uma galeria que destaca todas as cidades do mundo houve manifestações contra a Guerra do Iraque. Ali figuram as 30 mil pessoas que protestaram em São Paulo e as 15 mil no Rio de Janeiro, assim como as 1,5 milhão de pessoas que saíram pelas ruas de Barcelona durante vários dias no início da Guerra. Também faz uma bonita homenagem com os objetos que fizeram parte do protesto de toda Europa durante o período do conflito, como as panelas que foram usadas pelo espanhóis, todos os dias às 22h, para batucar o som de sua revolta.
Interessante também no Fórum é que em muitas apresentações o público pode intervir e participar de oficinas de artesanato, de batucada, de dança e até mesmo de esportes raros, que só existem em pequenos povoados do mundo. Um deles é a “Luta Turca”, que há muitos séculos é disputada em diversas celebrações, mas não chegou a ser popular até o Império Otomano. Os lutadores se untam em azeite antes de começar o combate. Outros esportes interessantes são o “Bolo Soriano”, parecido com o boliche e praticado somente por mulheres em Soria, e o “Highlands”, disputado no verão na Escócia, que se consiste em arremessar um martelo ou pedra a maior distância possível.
Outras oficinas como de máscaras de dragão, marionetes africanas, construção de cabanas, percussão oriental, danças caribenhas e a adorada capoeira também podem ser aproveitadas pelos visitantes.
É certo que o Fórum está contagiando a cidade, mudou a vida de Barcelona, mas nem todos estão satisfeitos com o evento. As atrações são muitas, mas os preços dos ingressos estão altos, o que torna a amior parte dos espetáculos inacessíveis para um grande número de espectadores. Na primeira semana de portas abertas, o Recinto, sede principal do Fórum e onde uma entrada para um dia custa 18 Euros, em torno de 60 reais, recebeu 110 mil pessoas, 15 mil a menos do que o esperado. O público quer assistir, dançar, rir, discutir e aplaudir as atrações de um dos eventos mais esperados na cidade. Os espanhóis daqui justificam que pagaram impostos para a realização deste evento, mas agora se vêem impedidas de assistir ao que ajudaram a construir. É uma pena que o Fórum Barcelona 2004, um evento social e único, que deve oferecer cultura para todos, não esteja acessível a um número maior de pessoas.
Barcelona respira cultura, mas a crise financeira que também é sentida por aqui, não permite que os moradores da cidade assistam tudo o que gostariam de ver.
*Cibele Haas é jornalista do Rio Grande do Sul, em período de estudos em Barcelona.

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