Por Emanuel Gomes de Mattos Chegou às bancas a edição número 114 Da revista Press, com David Coimbra na capa. Entrevistado pelo diretor-editor Júlio Ribeiro e pelo experiente editor Marco Antonio Schuster, ex-colega na redação do vespertino Hoje (lançado pela RBS em 1974, durou nove meses), o David surpreende. Não sei qual foi a tiragem, mas asseguro: será sucesso de venda garantido, pois o David não tem leitores e, sim, um fiel fã-clube.
Após um rápido perfil biográfico, Ribeiro e Schuster instigam o entrevistado a tocar em assuntos polêmicos. Desde a primeira pergunta, bem provocante:
– Em dezembro de 2007 você fez uma crônica sobre seu pai (que reproduzi no post “Meu presente de Ano Novo“). Me parece que você está começando a se abrir mais, pessoalmente, por que nesta crônica você fala que era alcoolista, é uma coisa muito pesada de se falar.
O essencial da resposta do David:
– Quando comecei a ter coluna, eu pensei: “Para que as pessoas vão querer saber a minha opinião. Todo mundo a sua tem opinião” – diz o David. Então, ele encontrou uma forma que cativou os leitores: primeiro conta uma história, no final relaciona com um fato e opina rapidamente. Sucesso garantido, tanto que seu blog – onde relata causos em vídeo – recebe o maior número de acessos.
– Acho que só agora, depois de mais de dez anos, é que essas histórias, como a que contei sobre o meu pai, podem representar alguma coisa para as pessoas. Porque vão comparar com a própria história e vão de alguma forma se espelhar, usar como experiência. Para isso serve você contar a sua história.
O conteúdo total, em sete páginas da entrevista, adquire um ritmo trepidante quando David é contundente ao abordar os assuntos com a maior naturalidade:
– Criança não pode estar na rua. Nem filho de rico. Não pode estar no shopping. Como em qualquer país desenvolvido. A prefeitura tem que botar a criança de rua no colégio, e o pai que está ali, na cadeia.
– Eu trabalhei muito tempo na política e acho que há uma baita injustiça com os políticos.
– Esses dias fui cobrir um jogo no Olímpico e na saída fui ameaçado. Os caras queriam bater em mim.
– Messalina foi uma grande mulher pelo seguinte: a maioria das mulheres faz sexo como meio e ela fazia sexo como fim.
Querem ler o resto? Custa apenas R$ 7,90 nas bancas. Ou entrem no site.
A revista possui curiosa distribuição editorial: duas capas de conteúdos diferentes: Advertising (Publicidade) e Press (Imprensa). Você lê até a metade e depois é obrigado a virá-la, pois os textos seguintes estão de cabeça pra baixo.
– Inicialmente eram duas revistas que se uniram porque atingem públicos semelhantes. Em vez de duas de 40 páginas, agora ficou uma de 60 – explica o editor Marco Schuster. O fato de estar no número 114 é resultado da soma das edições individuais, cerca de 90 quando Júlio Ribeiro fixou a numeração atual.
Maior prazer ainda foi ler as generosas referências que o David fez sobre os tempos em que convivemos em três redações. O primeiro encontro foi em 1986.
Quando aquele sujeito espigado chegou na sala em que eu entrevistava os jornalistas para formar a redação do Diário Catarinense, as vagas em Florianópolis estavam preenchidas. Havia cinco chamadas sedes de redação disponíveis para repórteres: Blumenau, Joinville, Criciúma, Lages e Chapecó.
Os chefes das sedes eram escolhidos por qualificação. Enfrentei resistências para impor Nei Manique em Criciúma, por causa de uma alegada ligação sua com o sindicato. Mas sabia que ele era o melhor jornalista da cidade e isso bastou.
Com o ônus da indicação, avaliei quais seriam os candidatos ideais para que a química daquela equipe desse certo. Tive a sorte de escolher o David Coimbra.
Sobre esse período, transcrevo um trecho de Nei Manique (foto), no site Idade Mídia. Título: “O meu amigão”.
“…pois o David veio trabalhar comigo no recém-inaugurado Diário Catarinense, em 1986. No primeiro sábado que resolvi levá-lo ao calçadão da Nereu, ele se produziu. Colocou uma bermuda estilo hot pants anos 70 (coladinha, mal alcançando a metade da coxa), meteu uma camiseta pólo pra dentro da bermuda e calçou um chinelo de couro com meias (carpins, como ele dizia) à altura do tornozelo. Meia hora depois, consegui convencê-lo de que mudar de Estado significava conhecer novos hábitos, novas culturas, e, no caso dele, novas mulheres que, por aqui, ele jamais conheceria se cismasse em sair de casa vestido “daquele jeito”… dois meses depois, ele já desfilava com uma namoradinha nativa a tiracolo…”
Vida que segue. Deixei o Diário Catarinense depois de produzir 50 pilotos e rodar as primeiras 100 edições. Em 1990, assumi a editoria de política do Correio do Povo. Havia apenas quatro vagas de repórter e toda a campanha eleitoral. Contratei o David para uma delas e setorizei um em cada candidato. As assessorias se desesperavam porque eu não publicava nada do material produzido por elas. Só entravam nas edições o que David Coimbra (Marchezan), Márcia Camarano (Collares), Izani Mustafá (Tarso) e Leandro Marshall (Fogaça) escreviam, dia após dia. Choveram reclamações durante toda a campanha.
Resultado: o Correio do Povo conquistou o Prêmio de Reportagem Geral da ARI – Associação Riograndense de Imprensa, feito inédito em campanha eleitoral.
Mais ainda: os quatro candidatos ao governo – Alceu Collares, Nelson Marchezan, Tarso Genro e José Fogaça – além do senador eleito Pedro Simon -, escreveram para elogiar a premiação da ARI.
– Foi um trabalho excepcional, magnífico e a premiação mais do que justa – avalizou Pedro Simon.
– É um trabalho de alta qualidade porque retrata com fidelidade os fatos que ocorreram na eleição – atestou Alceu Collares.
– Foi a melhor reportagem que já escreveram sobre mim até agora, em toda a minha carreira política de mais de 30 anos – exaltou Nelson Marchezan.
– As publicações saíram do padrão tradicional da política pela sua abrangência – observou José Fogaça.
– Os perfis denunciaram a intimidade psicológica existencial e cultural e me fazem lembrar o que os críticos chamam de romance psicológico – analisou Tarso Genro. Seus textos serviram de base para a publicação do anúncio de página inteira no Correio do Povo de 21/11/90.
No ano seguinte, 1991, completava 30 anos do episódio da Legalidade, em que o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, liderou a resistência contra os militares que não permitiam a posse do vice, João Goulart, em substituição a Jânio Quadros, que renunciou oito meses após assumir. Há dias o David tentava contato com Brizola, que governava o Rio de Janeiro, por telefone. Inutilmente. Então fui à sala do diretor de Redação, José Barrionuevo, e menti que o David tinha agendado um depoimento pessoal com Brizola, no Rio, à respeito da Legalidade.
Obtive as passagens, diárias e hospedagem. E lhe disse: “Só volta quando conseguir a entrevista”.
David ficou três dias consecutivos de pé, na ante-sala do gabinete do governador. Fez amizade com os secretários de Estado, com os chefes da Casa Civil e Militar. E com o assessor de imprensa, Fernando Britto. Mas Brizola negava-se a falar sobre a Legalidade, assunto tabu desde que retornara do exílio, em 1979.
No terceiro dia, Brizola foi ao Copacabana Palace encontrar Nelson Mandela, Prêmio Nobel da Paz de 1993 e presidente da África do Sul entre 1994 e 1999. O assessor de imprensa enfiou David junto à comitiva. Eis o resumo da ópera:
“Logo que terminou a reunião me apresentaram como “aquele jornalista gaúcho que está há três dias de plantão para conversar com o senhor”.
Frente a frente com Brizola, mandei o discurso que trazia na ponta da língua:
– Governador, o Correio vai publicar uma série a respeito dos 30 anos da Legalidade. As novas gerações desconhecem o episódio que garantiu a posse de Jango. Como o senhor sempre fala da nova geração com entusiasmo, ela precisa conhecer a sua versão dessa história.
Brizola mal me olhou e respondeu seco: “Não quero mais falar desse assunto”. Na mesma hora os assessores me afastaram e o Brizola se dirigiu ao helicóptero.
– Mas governador, se o senhor não falar, a série sobre a Legalidade será suspensa. O senhor é a Legalidade! – apelei.
O Brizola estacou o passo, pensou um segundo e disse, sem olhar pra trás:
– Fala com o Britto e vai pro Palácio.
A noite já ia alta, entrava a madrugada, quando finalmente Brizola respondeu as perguntas por telefone. Ele, em seu gabinete; e eu, na ante-sala. Depois o governador exigiu ler as anotações antes de autorizar a sua publicação. Fernando Britto datilografou tudo e jogou fora os originais. Enquanto encaminhava o texto ao governador, fui ao lixo e roubei as minhas próprias anotações.
Segundo o secretário, a autorização de Brizola seria enviada mais tarde, por fax. De volta a Porto Alegre, relatei os fatos. Decidimos dar um peitaço e publicar a entrevista na íntegra, com ou sem o fax enviado pela assessoria de Brizola.
“Para nossa sorte, na véspera de iniciar a série, chegou a autorização”, recorda o David, aliviado com o desfecho. A reportagem lhe rendeu mais um Prêmio ARI.
Foram nove páginas, em sete edições. As quatro páginas iniciais, duas por dia, somente com a entrevista exclusiva de Brizola, a primeira em que ele falou a respeito da Legalidade depois de ter sido cassado pelos militares, em 1964.
Quando David foi contratado pelo jornal Zero Hora, o excelente jornalista Marcelo Rech era repórter. Em 1991, havia tentado entrevistar Brizola e só desistiu depois de receber a garantia de que o governador não daria nenhum depoimento à imprensa a respeito do episódio.
Na chegada à ZH, David ouviu as boas-vindas de Marcelo, curioso sobre o artifício utilizado:
– Agora me conta como é que tu conseguiste aquele “furo” nos 30 anos da Legalidade?
David relatou do mesmo jeito que hoje escreve as suas deliciosas crônicas bem humoradas.
Esse episódio faz parte de um passado distante. Depois, o David foi demitido da editoria de Política, por pressão do governo da época, mas deu uma espetacular volta por cima ao ser resgatado pelo próprio Marcelo Rech – já diretor de Redação -, para editor de Esportes, cargo que ocupa desde 1996.
Uma das lições que aprendi na vida é que o falso amigo se revela em uma função de chefia. É impressionante a metamorfose de que tais filhos da puta são capazes para se manter. O David é um raro sujeito que não mudou um milímetro no exercício do poder e, principalmente, ao lidar com a fama. Parece ainda morar no IAPI.
Ele é um dos astros do apreciado “CaféTVCOM“, ao lado de Tânia Carvalho, Tatata Pimentel, José Antônio Pinheiro Machado e Thedy Corrêa, no Canal 36, onde discutem cultura e comportamento, com informações e muita saia justa.
E também faz graça no programa “Pretinho Básico“, da Rádio Atlântida FM.
Em 1998, começou a escrever colunas no jornal – por sugestão de Marcelo Rech – e o sucesso foi imediato. Às quartas e domingos na Editoria de Esportes, às sextas na página 3 de ZH, e às segundas no Caderno “Meu Filho”, onde relata as aventuras do pequeno Bernardo, desde a gravidez de Marcinha até o primeiro cocô duro.
Aliás, a crônica “Nasceu o Bernardo” lhe rendeu a menção honrosa no Prêmio ARI de 2007, certamente aquele que mais deixou orgulhoso esse pai coruja.
Atualmente a família Coimbra vive em uma mansão adquirida graças aos direitos autorais obtidos com a venda de seus 11 livros, dos quais “Jogo de Damas” já virou um fenômeno.
Não à toa. Nele, através de “profundo e meticuloso estudo científico”, o David concluiu: ao longo de 12 mil anos de civilização, as mulheres tornaram-se dominadoras da Terra. “Elas nos manipulam com seu jogo de sedução. Graças ao poder que o sexo lhes confere, fazem de nós o que bem entendem. Miam para arrancar um pequeno favor, esmagam os ventrículos dos nossos corações com seus pequenos saltos”, são alguns trechos que selecionei desse best-seller que esgotou-se rapidamente, graças ao tema pertinente para seu público-alvo.
Deu pra entender por que, mesmo perto dos 46 anos (28/4/62), o David ainda faz suspirar seu vasto séquito de admiradoras? E mantém amigos tão leais?
* Este texto é em homenagem ao saudoso Geraldo Calixtro, laboratorista na Caldas Júnior, Última Hora e Zero Hora, mestre dos fotógrafos, que nos deixou esta semana.


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