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De Ambrosia e outras doçuras

Por J. A. Moraes de Oliveira A casa de minha infância na rua Vasco da Gama não existe mais. O quarteirão inteiro desapareceu, transformado …

Por J. A. Moraes de Oliveira

A casa de minha infância na rua Vasco da Gama não existe mais. O quarteirão inteiro desapareceu, transformado em uma rampa de acesso dos carros à Rua Ramiro Barcelos. Pequenos prédios residenciais ocupam agora o lugar onde se alinhavam as casas geminadas e os pequenos assobradados dos tempos de minhas tenras inocências.

Ainda sobrevivem alguns dos grandes jacarandás que, a cada novembro, espalhavam um tapete colorido sobre as calçadas. Mas o grande casarão de pedra na esquina com a Ramiro Barcelos foi demolido. E a própria esquina sumiu, engolida pela rampa.

Foi naquela esquina que eu vi de perto os olhos azuis de Ingrid. Quando voltava do Colégio Rosário, eu me deixava ficar ali por alguns minutos, atento ao som dos patins de Ingrid. Que, sem aviso, um belo dia viajou para Buenos Aires, deixando uma espécie de saudade do que eu pensava que seria meu primeiro namoro.   

Caminhei rua abaixo, procurando a casa de janelas azuis, onde funcionava o Armazém Vasco, do português Manuel Pereira. Ele andava com um avental sempre manchado de azul e um eterno toco de lápis na orelha direita.

A cada minuto, “seu” Manuel tirava o lápis e anotava o valor e a data nos cadernos dos “fregueses”, que eram guardados junto à caixa registradora.

Quando eu levava o dinheiro para saldar a conta no final do mês, ele enfiava a mão debaixo do balcão e alcançava um mandolate ou uma bala quebra-queixo, demonstrando sua alegria de receber o pagamento em dia. Quando era minha mãe que ia pagar a conta, o prêmio era maior – uma grande lata de compota de pêssegos de Pelotas.

Dobrando a Felipe Camarão, lembrei-me do mercadinho de Dona Bertha. Ela morava na parte de cima do pequeno sobrado, com os filhos David e Moshe. No balcão do mercadinho, havia uma pequena vitrina de vidro com uma porta que não fechava bem. Ali, ficavam expostos os doces de amendoim, batata, abóbora e os meus favoritos – os mil-folhas.

Nos finais de tarde, Dona Bertha colocava cadeiras na calçada para conversar e “ver o movimento”. Era quando David, Moshe e eu tentávamos surripiar um dos coloridos mil-folhas.

Mas, mesmo de longe, ela mantinha um olhar dentro do mercadinho e não se conseguia chegar perto dos doces, sem ouvir seu grito, que vinha lá da calçada.

Eu voltava para casa, imaginando como deveriam ser gostosos os doces da pequena vitrina de vidro. Minha mãe se aborrecia com os meus resmungos sobre os mil-folhas de Dona Bertha. Dizia, simplesmente, que os doces feitos em casa eram melhores do que qualquer doce vendido na esquina.

Em uma tarde de sábado, separei o troco que sobrara das matinês no Cinema Baltimore e fui atrás de um daqueles cobiçados mil-folhas. Com um olhar mais penalizado do que divertido, Dona Bertha escolheu o maior dos doces da vitrina.

Devorei a guloseima, a cobertura de glacê esfarelando nas mãos, o recheio de ovos pingando na camisa branca nova. Voltei para casa decepcionado, pois o mil-folhas não era o que eu imaginava e muito menos valia as moedas que ficaram na gaveta de Dona Bertha. Melhor teria sido comprar o último Gibi mensal, que me renderia uma tarde inteira na companhia do Tocha Humana e do Príncipe Submarino.

Minha mãe notou a camisa manchada, mandou trocá-la por uma limpa, e não disse mais nada. No dia seguinte, voltando da missa das dez na Igreja Santa Terezinha, entrei em casa e senti um penetrante aroma de doce, vindo da cozinha. Minha mãe estava fazendo alguma coisa especial. E não era o dia de meu aniversário.

Depois do almoço, ela me serviu uma generosa porção de ambrosia. Com os braços cruzados, junto ao fogão, seu olhar se enternecia, me vendo comer gulosamente o doce que eu mais gostava. A ambrosia daquele domingo ficou em minha lembrança como uma pequena lição de que não se deveria desejar o que não nos pertencia.

***

Ainda lembro outros doces de minha infância na Vasco da Gama. Havia o bolo de chocolate que vinha do casarão da família Meneghetti, em prato de cristal e coberto por um guardanapo bordado. E havia ainda os pequenos doces que Dona Esther, no sobradinho ao lado, nos oferecia em todas as festas israelitas.

Eu achava o bolo de chocolate dos Meneghetti um tanto farinhento e os doces ídiches com um sabor picante demais.

O melhor de todos os doces, com verdadeiro sabor de festa, era a torta de nozes que meu pai trazia da Confeitaria Schramm, na rua da Praia. A torta durava quase uma semana, a mãe reservando para meu pai o redondo do centro, que tinha uma noz inteira e onde o recheio de nozes guardava um perfume de rum.

Mas nenhum doce dos vizinhos ou de confeitaria continha a magia da ambrosia dourada e úmida que minha mãe fazia.

Era o seu jeito de demonstrar carinho com a família, cozinhando lentamente o doce, mesmo nos dias comuns, que não eram aniversário de ninguém.

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