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Descontrole

Por Glauco Fonseca* Depois de algum tempo, você vai se acostumando com algumas coisas que não estão, definitivamente, sob o seu controle. Mais dramático …

Por Glauco Fonseca*

Depois de algum tempo, você vai se acostumando com algumas coisas que não estão, definitivamente, sob o seu controle. Mais dramático ainda é saber que, à medida em que o tempo passa, paradoxalmente, cada vez menos coisas submetem-se às suas ordens ou vontades.

Começando com sacolas de supermercado. Você chega na garagem, abre o porta-malas, carrega as sacolas e as vai colocando no elevador. Ao fazer isto, observa que a maioria delas apontam o seu centro de gravidade para o sentido oposto da parede. Ou seja, mesmo que sejam feitos cálculos mentais precisos, a colocação da sacola sempre demandará uma correção de 180 graus em sua posição, isto se o conteúdo não se “rebelar” e sair da sacola. Mas não se estresse porque isto é assim mesmo e não adianta tentar corrigir, muito menos quando forem duas ou mais garrafas PET de dois litros.

Minha tese, há muitos anos, é que fios – fios mesmo, elétricos, de computador, de alto-falantes – são seres vivos que se emaranham como víboras. Os fios podem ser azuis, pretos, amarelos, não importa. Um tem uma intensa paixão pelo outro e se enroscam sozinhos, sem que ninguém interfira, o que pode comprovar sua condição orgânica altamente ativa.

Imagine agora o presidente da República tendo que anunciar o salário-mínimo de 260 reais, admitir que o Fome Zero está morto, que os 10 milhões de empregos não vão acontecer nem por milagre. Imagine o paradoxo mental de ser o cara mais poderoso do país e não poder mudar nada, porque nada disso está sob seu controle.

Se dependesse do governo federal, do Ministério das Comunicações e da Anatel, teríamos de volta a cartelização da telefonia de longa distância. O controle, neste caso, foi exercido por um juiz nova-iorquino de descendência espanhola, que autorizou a Telmex a comprar a Embratel, ao invés do cartel formado pela Brasil Telecom, Telemar e Telefônica. Parece mentira, mas o governo brasileiro e a agência (des)regulatória Anatel iam, como Pilatos, lavar as mãos diante de um crime de lesa-pátria descoberto em papel sobre a mesa de um vice-presidente da Telefônica.

“É brutcho”, como diria…eu mesmo. Haja descontrole. De sacolinhas plásticas a um governo eleito com base na esperança.

Um governo tão vil e tão inepto, capaz de castrar a única coisa que ainda resta ao povo, que é a esperança, deveria tomar mais cuidado com o que faz, com o que deveria fazer e, principalmente, com o que não faz.

Se FHC era melhor? Não é importante, mas, sim, era muito melhor. Mesmo assim, Lula deveria mais era se comparar consigo mesmo e sua história, para exercer o controle que nós todos, mal ou bem, demos a ele.

*Glauco Fonseca é publicitário

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