Por Gabriel Moojen Voltei anos depois ao lugar onde passei minha adolescência. Fui punk aos 16 anos em uma cidade planejada e bem longe do mar. Foi nessa época que imaginei pela primeira vez que poderia mudar o mundo. Mas o que! O máximo que consegui foi cortar umas calças velhas e dançar como um delinqüente nos clubes da capital. Parece que pouca coisa havia mudado. Brasília continuava sendo um péssimo lugar para quem anda de mochila e quer um pouco mais que palácios e avenidas com controladores de trânsito.
Perto de Brasília, a 180 km, existe a Chapada dos Veadeiros. Quando eu morava lá estava alienado demais em discos e tendências para buscar algo como estar em contato com a natureza. Dirigindo um Jipe antigo cruzei o plano piloto pelo eixo central, deixei Planaltina para a direita e cheguei a São Jorge.
Foi como se um Brasil novo se apresentasse a minha frente. À medida que o carro cruzava aquela estrada no planalto, formas simétricas cortavam o horizonte, desenhando contornos e sombras que meus olhos ainda não haviam visto. Ali estavam as cachoeiras mais lindas que eu jamais vi e nadei. Cavalguei por fazendas e morros, vi cavalos subindo caminhos em uma montanha onde toda minha experiência de gaúcho dos pampas foi usada. Sentado em uma pedra vendo a água cair, vi o sol descer vermelho atrás das nuvens.
Parece uma grande bobagem, mas cada vez descubro que sei menos. Cada vez mais minha sabedoria se resume a sorrir e ser bondoso. Minhas mãos servem para distribuir o que recebo e cada vez ganho mais e mais. As portas estão sempre abertas para quem sabe chegar. E os lugares todos estão sempre parados esperando por nós. Assim vejo minha experiência por essa terra. Buscando visitar o maior número de cidades vilas praias ou montanhas apenas passando.
Existe muita sabedoria na cabeça dos velhos que moram em cidades pequenas e muitas filosofias também. Sei que no momento que o sol deixa seu rastro e a noite toma conta da pedra onde estou sentado pouca coisa muda, mas meu ser canta alegre por dentro entre o ruído da brisa e o leve morder de um mosquito. Não tenho idéia de quanto tenho andado, quantas camas duras ou boas experimentei, quantos dias eu fiquei sem tomar um banho quente ou telefonar para casa. Sei apenas que moldando minha alma cheia de poeira me torno um cara melhor.
Assim acredito. Sempre quando caio na estrada me transformo num profeta. Abstraio meus valores e domo meus medos. Quando o dia amanheceu azul, meio nublado eu me vi sacolejando ao lado de um cara chamado Bruno que me guiava até uns amigos que tinham uma banda de reggae e faziam rappel. Eu tenho de medo de altura, mas aceito os desafios como se aquele fosse o preço por estar em um lugar tão abençoado. Jean tinha 19 anos e me garantiu que descer o cânion era moleza. Mas lá embaixo o bicho pegou. Havia muita água e a subida foi algo como ir ou morrer. Porque no fundo da garganta da terra eu ouvia os trovões de uma tempestade que se anunciava. Escalei uma parede com a força de um deus assustado e quando finalmente cheguei ao topo a água desceu junto de raios furiosos.
Depois, sentado no avião olhando os contornos do planeta a 13 mil pés de altura, vi um tapete de nuvens brancas contrastando com a cor púrpura da noite. Eu estava feliz. E voando. Anotando tudo nesse meu diário. É isso que vai ficar. Essas histórias e algumas fotografias. O resto é o vento passando e as luzes da cidade lá embaixo.

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