Por J. A. Moraes de Oliveira O Coronel Picurra não morria de amores pelas carreiras de cavalos, que eram realizadas a cada ano na cancha reta, que riscava a várzea entre o açude e a sede da fazenda do Passo Grande.
Quando se aproximava novembro, meus tios Alvinho e Deoclécio começavam a tocar no assunto, lembrando os cavalos vencedores do ano anterior e de como os fazendeiros vizinhos e a peonada se divertiam com as carreiras mais afamadas da região.
O Coronel Picurra – que era o nome de família de meu avô Patricio Vieira de Moraes – retrucava que a movimentação de gente, carroças e cavalos ferrados, estragava uma das melhores pastagens da fazenda. E que os peões convocados para preparar a cancha reta, fariam falta no rodeio na invernada de baixo.
Mas meus tios eram teimosos e birrentos, insistindo até cansar o velho patriarca. Que finalmente cedia, não sem antes emitir um comentário ácido, olhando no olho do filho Deoclécio, o mais velho:
– Tu falas tanto em carreiras que pareces gostar mais de cavalos do que de tua mulher.
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Nos dias seguintes, começava a movimentação. A notícia das carreiras se espalhava e os criadores da região se apressavam em inscrever seus parelheiros.
Nos bolichos e nas rodas de galpão, a peonada se dividia em discussões sobre os melhores cavalos na cancha reta. E logo surgiam as primeiras apostas, que variavam desde alguns pacotes de erva-mate até uma ovelha gorda, pronta para o assador.
Eram dez carreiras ao longo do domingo, reunindo os vinte melhores cavalos: pela manhã corriam os potros mais novos e, fechando a festa, a disputa era entre os garanhões ganhadores de outras carreiras.
Como sempre, convocaram o delegado de Tapes para juiz de chegada. Com seu vistoso .38 na cintura e a Winchester enfiada nos pelegos dos arreios, o homem era a garantia contra protestos mais exaltados dos habituais perdedores.
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Eu subia no alto da torre do catavento para acompanhar a limpeza da cancha reta. Era um trabalho demorado, fiscalizado a cada manhã por meu avô, que não deixava os peões sossegados enquanto tudo não estivesse do jeito que ele gostava.
Do outro lado da casa, eu via a montagem das primeiras barracas, onde as mulheres dos fazendeiros vendiam pão de milho, garrafas de melado, mel de flor-de-eucalipto e as apreciadas compotas de doce de laranja.
No centro, havia uma grande barraca, que era reservada apenas para os fazendeiros e criadores de cavalos. Ali se faziam as grandes apostas e se negociavam os melhores garanhões e éguas da região.
Meu avô mandava trazer da sala de visita as cadeiras com encosto de veludo, formando uma roda com os fazendeiros vizinhos, para falar do clima e dos rebanhos, enquanto sua cuia com filigranas de ouro e prata passava de mão em mão.
As crianças não podiam entrar naquela barraca, mas eu não ligava, pois preferia ficar nas cocheiras, onde os cavalos e seus jinetes esperavam a hora das corridas. Lá estavam o grande zaino do tio Alvinho e o tordilho azulego de “seu” Acácio, que tinha a fama de não perder carreiras.
Eu andava de baia em baia, admirando os cavalos e tentando advinhar suas pelagens. Mas como menino da cidade, raramente acertava, o que provocava risadas do peão Edu, principalmente quando confundia azalão com gateado ou tobiano com pintado.
Naqueles momentos, eu me socorria com o Tio Alvinho, que além de se considerar o melhor domador de chucros da região, afirmava poder identificar a pelagem de um cavalo mesmo em noite sem lua.
Certa vez, desafiado pelos irmãos, recitou mais de cem diferentes tipos de pelos até que o fizeram calar, protestando que metade daquelas pelagens não existia ou nunca haviam sido vistas nas bandas do Camaquã.
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Acho que foram as carreiras na fazenda do meu avô que despertaram o fascínio por cavalos, que me acompanharia pelo resto da vida. Eram festas alegres e ingênuas, onde as pessoas usavam suas melhores roupas e exibiam com orgulho seus melhores cavalos. Aquilo tudo me provocou certos encantamentos que nunca esqueci.
Também guardo até hoje no paladar o sabor especial dos doces de amendoim crocantes, preparados com carinho e desvelo pela tia Vieira.
Ela se instalava em uma barraca branca, perto do Capão Grande e vendia os doces em potes de vidro de tampa vermelha.
Minha mãe sabia bem de minha paixão pelos doces de amendoim da tia Vieira e os usava para me tirar de perto dos cavalos.
Eu sentava do lado de fora da barraca branca, esperando a hora das largadas e roendo lentamente as pequenas rapaduras de amendoim do pote colocado ao meu lado.
Foi um dos prazeres que nunca mais consegui reencontrar.

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