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Dilema, parte I

Por Glauco Fonseca – Papai, o meu colega disse que não quer mais ser meu amigo.– Ué, e por que?– Porque ele disse que …

Por Glauco Fonseca

– Papai, o meu colega disse que não quer mais ser meu amigo.
– Ué, e por que?
– Porque ele disse que não queria ser corrupto. Ele disse que você era corrupto e tinha amigos corruptos e que se ele fosse meu amigo, também seria corrupto, então…
– Tá, tá OK. Entendi. Não precisa explicar mais. Não dá bola pra ele e diz que você não é corrupto, nem seu pai é corrupto. Aliás, eu aposto que ele nem sabe direito o que é corrupto.
– Corrupto é coisa ruim, né pai?
– É, meu filho.
– E você é corrupto, pai?
– Não, meu filho, é claro que não sou.
– Mas o que você tava fazendo na TV, com aquele monte de gente fazendo pergunta pra você sobre os seus amigos e sobre um carro que você ganhou?
– Não é nada, filho. O papai até já devolveu o carro e não é mais amigo daquelas pessoas ruins.
– Por que você devolveu o carro?
– Por que não era meu e algumas pessoas acharam que eu não deveria ter ficado com ele.
– Você roubou o carro, paaaaai?
– Não, filho, é claro que não.
– Então devolveu por que paaaai?
– Porque não deveria nem ter ficado com ele há tempos atrás. Papai errou em ter recebido um presente que não deveria ter aceitado.
– E isto é ser corrupto pai, receber um presente que não deveria ter recebido?
– Não. Isto é, mais ou menos. Mas agora já devolvi o carro e o assunto está encerrado.
– E por que você tá sempre em casa, pai? Por que não vai mais lá no edifício da estrela?
– Papai não trabalha mais lá, filho.
– Você foi demitido, pai?
– Não. Quer dizer, mais ou menos. Sim. É, na verdade fui demitido sim, filho.
– Então você tem que conseguir outro emprego, né pai? Não vai ser difícil, porque tá cheio de foto sua no jornal e todo mundo nos conhece quando a gente vai ao shopping, ao restaurante, no parque, né pai?
– Tá difícil, filho. Tá muito difícil…
– Mas pai, então liga pro tio Zé, pro tio Dê, praquele tio da barba, aquele que não tem um dedo na mão.
– É, filho, vou tentar de novo, mas eles não me atendem há muito tempo.
– O que você vai fazer, pai? Se você não é corrupto, vai ser fácil ajeitar as coisas seguir em frente, não é?
– Espero que sim, filho. Espero que sim.
– Aí o meu colega vai ser meu amigo de novo, né pai? Diz que ele vai, pai, diz.
– Tá bom, filho. Ele vai ser seu amigo de novo sim. Boa aula, viu? Depois o papai virá te buscar.

Ele beija o filho, suspira e decide, finalmente, agendar aquela entrevista com a repórter do jornal.

(continua)

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