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É por isso que nos intitulamos humanos?

Por Antonio Oliveira Eu ia falar que por mais que muita gente tente mostrar que algumas profissões ou atitudes podem se misturar com outras …

Por Antonio Oliveira

Eu ia falar que por mais que muita gente tente mostrar que algumas profissões ou atitudes podem se misturar com outras e no final tudo dar samba, há algumas coisas que, assim como a água e o azeite, não se misturam, por mais que se insista. De jeito nenhum. É o caso, por exemplo, do jornalismo com política. Talvez seja por isso, inclusive, que algumas empresas não permitem que seus funcionários se candidatem (quando não lhes interessa, claro).

Ia dizer que exercer estas duas atividades ao mesmo tempo é impossível, pois uma sempre prejudicará a outra. É como policial ladrão. Um dia explode tudo. Uma atividade sempre tornará a outra menor ou maior, coisa que nenhuma pessoa que as exercite aceitará. Nunca conseguirá o equilíbrio. O mais provável é que este político ou este jornalista caia em descrédito junto a grupos ou à própria sociedade como um todo. Os exemplos estão por aí aos montes. Aqui na nossa terrinha há vários jornalistas que estão até hoje arrependidos de terem misturado as duas coisas. Mas aí eu incluo também os donos dos veículos, que depois que decidiram substituir a oposição política, que consideram muito fraca, só viram seus veículos (em especial os escritos) perderem a credibilidade.

Eu ia até dizer que como oposicionista paga (e bem paga) e protegida pelos grandes grupos de mídia reacionários do mundo inteiro, não só do Brasil, para atacar diariamente o regime cubano, a “jornalista” Yoani Sánchez já deveria ter aprendido isto e não tem nada que reclamar do tratamento que recebeu na sua primeira passagem pelo Brasil (ela promete voltar). Ao contrário, só tem que agradecer. Se alguém tem culpa de alguma coisa são os anfitriões que organizaram a sua vinda e não lhe contaram a verdade, da mesma maneira como fazem com os leitores dos seus jornais. Mas a verdade, mesmo, é que ninguém mais acredita neles.

Pensei em falar que a Yoani veio para cá induzida, conduzida, paga e nos braços do que há de mais reacionário na imprensa e na política brasileiras, acabando por ser paparicada na Câmara pelo deputado defensor da ditadura militar Jair Bolsonaro e deu no que deu. O produto que ela vende é bom e comprável por qualquer público, mas o invólucro em que ela se apresenta é complicado e o que ele representa é algo que os brasileiros rejeitam e estão combatendo. E ainda bem que, pelo menos um pequeno grupo, teve coragem de dizer isto a ela, de cara a cara, olho no olho. Uma pena que o senador Eduardo Suplicy, uma pessoa do bem, não tenha entendido o que estava acontecendo e acabou abraçado com um bando de reacionários.

Pretendia citar, também, um exemplo dos mais ridículos, de uma imprensa escrita em decadência e que esqueceu de fazer jornalismo ao optar pela política, dado pelo jornal O Estado de S. Paulo, que um dia chegou a ter na sua página na internet quatro chamadas (a manchete principal e mais três sub-manchetes) sobre a coitada da Yoani, que acabou sendo transformada numa celebridade sem chance de falar em evento nenhum para vender o seu peixe. O Estadão deu mais um grande passo na corrida lomba abaixo que fazem os veículos escritos da grande imprensa brasileira rumo ao precipício, ao suicídio.

Queria dizer que nem a sua linguagem permanentemente provocadora e seu sorriso irônico Yoani substituiu, em sua passagem pelo Brasil, por algo mais leve e construtivo em que se pudesse acreditar em sua fala (os que a trouxeram não souberam orientá-la porque já esqueceram de como se faz jornalismo e perderam o crédito junto aos seus leitores). Junte-se a isto sua história menos para o nacionalista e mais para a mercenária.

Pensava em ressaltar que por muito menos do que Yaoni fez de propaganda no Brasil contra o regime cubano, alguns jornalistas brasileiros já foram assassinados a mando de pessoas que têm ligação direta com os que a defendem em sua passagem por aqui.

E ia concluir que não era necessário trazer a cubana. Em Porto Alegre, por exemplo, há “blogueiros” com atuação semelhante (e muito mais raivosos e ofensivos) à que ela exerce contra Cuba, só que atuam contra os governos Tarso e Dilma. Jogaram no lixo a credibilidade que tinham como jornalistas e tornaram-se “políticos” também sem credibilidade. Optaram por esta mistura explosiva e deram-se mal.

Eu pretendia falar sobre tudo isto e mais um montão de coisas, mas aí vi que um grupo de jovens, incluindo uma moça, mal amados, mal orientados e que, por isso tonaram-se malvados e assassinos, mataram o Domingos Rodrigues Aronna, 22 anos, ali do lado do nosso Mercado Público. Aí, eu brochei.

E só resolvi perguntar quando é que vamos parar de matar a pauladas, pedradas, botando fogo, os nossos irmãos, por serem índios, pobres, abandonados. Será que já não é suficiente o que eles sofrem? Precisamos, ainda, matá-los? Em momentos como este é que eu paro e reflito: é para isto que estamos aqui? É por isso que nos intitulamos humanos para nos diferenciar dos animais? Eu, definitivamente, não.

Nestas horas eu fico muito confuso, perdido e só.

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