O episódio envolvendo Monark no Flow Podcast escancara uma realidade que está sendo difundida pelos meios digitais, de que o legal agora é ser “idiota” – como se define o próprio Monark. Então, você reúne mais de 100 mil pessoas assistindo a um programa e o “grande barato” é que são “dois guris idiotas”? Não pode esse ser o “grande barato”. Só uso a expressão “idiotas” porque foram assim que os dois (Monark e Igor) se definiram e acreditam que este era o motivo do sucesso do programa. O Flow inovou no formato e logo ganhou a simpatia dos brasileiros, o questionamento que acontece agora é o despreparo para tratar de temas que afetam diretamente a vida das pessoas. Monark já questionou que: “Se eu posso dirigir um carro, porque não posso andar armado?”
Mas Monark sempre se manifestou de forma preconceituosa sobre homossexuais, por exemplo, e no seu twitter escreveu: “É a ação que faz o crime e não a opinião”. Ter uma opinião racista é crime?” Monark desconhecia que qualquer opinião que se torne pública pode, sim, ser considerada um crime, dependendo do seu conteúdo. Quando entrevistava o humorista Antônio Tabet, Monark cita pessoas que gostam de refrigerante e diz que o direito delas de expressar este gosto deveria ser o mesmo de pessoas expressarem sua homofobia.
Estes absurdos já eram ditos no Flow e com nomes consagrados passando pelo programa, sempre muito bem patrocinado por marcas que até ontem não se incomodavam com as opiniões de Monark.
O Flow é daqueles Podcast intermináveis, costuma passar de quatro horas de duração. É legal oferecer um vinho para o convidado, uma cerveja, mas não dá para imaginar que está numa “conversa de botequim”, embriagar-se e defender a existência de um partido nazista no Brasil para abrigar os que apoiam a causa de Hitler. Monark pediu desculpas depois dizendo estar bêbado, ou seja, é aquela ideia irresponsável de que estamos em um papo de botequim.
Monark foi apoiado pelo deputado Kim Kataguiri, o mesmo que se esforçou muito para que Temer assumisse a presidência, elegeu-se apoiando a causa bolsonarista e agora se diz oposição, mas nem ele mesmo sabe a quem faz oposição.
O espaço para programas comandados por “amadores” (no sentido de não entenderem o impacto que a mensagem tem junto ao público, independente do veículo de comunicação) fica agora mais fortemente questionado, depois do mal-estar criado no Flow. Os jornalistas, e especialmente os veículos de comunicação, estão muito atrasados em relação a um pessoal que já descobriu este espaço e o está ocupando. O ambiente só vai melhorar na medida em que as pessoas que estiverem na linha de frente forem melhores, não há outra maneira.
Se existe algo de positivo no episódio lamentável que aconteceu, é o fato de se exigir mais dos comunicadores, independentemente do número de seguidores, audiência ou plataforma de comunicação. Responsabilidade social não é algo que se negocie em comunicação.
Nando Gross é jornalista.


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