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Enfim, um santo brasileiro

Por Antônio Goulart Já temos um brasileiro autêntico como santo. É o primeiro. Até agora só vínhamos cultuando santos multinacionais. É o paulista frei …

Por Antônio Goulart

Já temos um brasileiro autêntico como santo. É o primeiro. Até agora só vínhamos cultuando santos multinacionais. É o paulista frei Galvão, morto em 1822, há quase duzentos anos. De onde se conclui que para se chegar ao estágio da canonização não se pode ficar de olho no calendário, esperando por algo mais ou menos imediato.

Se existe hoje, neste mundo contraditório, uma aspiração totalmente em baixa é a aspiração à santidade, no seu sentido tradicional. Pelo menos nunca ouço falar nela, nem conheço alguém com desejo de ser santo. Os tempos mudaram. A Igreja Católica deste início do século 21 tem pouco a ver com aquela que começou com Pedro e Paulo. Os atuais padres, bispos, teólogos e até o papa já não pensam e nem agem como os da época em que aprendíamos catecismo.

É possível que, no moderno conceito, santidade seja outra coisa. Quem duvida que haja verdadeiros santos vivendo entre nós, disfarçados de executivos de terno e gravata, de jovens vestindo jeans, de rotineiras donas-de-casa ou de trabalhadores de macacão?

Sem menosprezar as pessoas virtuosas que se encontram em toda parte, não só nos conventos e mosteiros, a preocupação com a santidade, do jeito antigo, não faz mais sentido. Os santos de hoje ganham Prêmio Nobel da Paz ou são retratados, ainda em vida, em especiais de TV, tão raros são eles. Ou será que “um santo apenas é santo para si próprio”, como dizia santo Agostinho?

O único exemplo mais recente que conheço de busca explícita da santidade é o de Louis Salavin, personagem de ficção de uma admirável obra do francês George Duhamel (Diário de Salavin), publicada na distante década de 1940.

Trata-se de um cidadão classe média, publicitário de um indústria de laticínios, que um dia resolve ser santo. Sem abandonar a família e o emprego, passa a registrar num diário todo o seu esforço na nova experiência. Coisas incríveis acontecem, desde o remorso por constatar que o produto que anuncia não corresponde ao que diz a propaganda, até o receio de que a mulher venha a ler suas anotações secretas. Para despistar, substitui nos escritos a palavra “santo” por “turista”.

A rotina do nosso herói começa a mudar, embora de forma lenta e disfarçada, com a prática de penitências, jejum, abstinência sexual e até autoflagelação camuflada. Mas, a certa altura, resolve suspender este último sacrifício. Foi o dia em que, ao tentar martirizar-se com o máximo de dor suportável, a mulher, acidentalmente, empurra a porta atrás da qual ele se encontrava, esmagando-lhe um dedo.

O livro, embora pareça, não explora só o lado cômico. Pelo contrário, é sério, sensível e humano. Mas o autor chega à conclusão de que “o mundo de hoje não pode produzir santos. Já não os quer. Ri-se deles”.

E isto foi escrito há mais de 60 anos.

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