Por J. A. Moraes de Oliveira Era uma manhã de outono, as ruas estavam livres de turistas, a Piazza di San Giovanni ainda deserta e o pavimento de pedras antigas brilhando com a chuva da noite. Me instalo na esplanada do Café Rizzoli, peço um succo d’arancia e consulto o relógio. Mais uma vez, o professor de Salamanca estava atrasado.
Gasto o tempo observando a rotina matinal, gente emergindo das ruas laterais e cruzando a praça de um lado para outro. Mulheres saindo da panetteria com pacotes de pão, crianças de azul-e-branco a caminho da escola. Chegam os vendedores de postais e iniciam a montagem das tendas, enquanto discutem animadamente os resultados da lotto.
Sob a sombra do imenso duomo, as pessoas passam indiferentes aos mármores verdes e brancos de Giotto. Mas ninguém parece ter um minuto para admirar aquela arquitetura magnífica.
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Mas há uma exceção – uma figura familiar está no meio da praça, os olhos voltados para o alto. Reconheço as roupas desalinhadas, o perfil rechonchudo. Um minuto depois, o professor de Salamanca sai de seu êxtase e caminha em minha direção.
Chega, faz um gesto vago em direção a Santa Maria del Fiore, retira um livro da gasta sacola de compras e o coloca sobre a mesa. O homem que tem sonhos em preto-e-branco e que lê livros à distância, sempre tem novidades para contar.
Olho o título, “Oratio de hominis dignitate”, e o nome do autor, Pico della Mirandola, mas não significam nada para mim. O professor abre a capa de couro e exibe o desenho do frontespício – era a grande porta de bronze do batistério, que estava bem ali à nossa frente.
E começa a falar:
“- Esta porta tem história – foi desenhada em 1424 por Lorenzo Ghiberti e batizada como o “Portão do Paraíso” por outro gênio do renascimento – Michelangelo Buonarroti. Ele costumava dizer que não era uma obra dos homens, mas dos anjos. Foi diante dessa porta que Pico della Mirandola se ajoelhou, ao ser preso por ordem dos Médicis. Ele havia escrito 900 tratados de filosofia e teologia, mas este pequeno livro sobre a dignidade humana foi considerado herético e quase o levou à fogueira“.
E finalizou: “Este deve ser o último exemplar existente, além, é claro, do que está guardado nos cofres da Biblioteca do Vaticano”.
Eu, mudo, e ele, imperturbável:
” – O nosso frade Mirandola está enterrado aqui perto, no Convento di San Marco. Vamos visitá-lo?”
Sem esperar, levantou-se e fechou o livro. Eu o segui pela Via de Medici até a Piazza della Signoria.
***
No convento, fiquei no átrio, enquanto o professor saía para procurar o túmulo do filófoso. Mas antes, me alcança a sacola com o precioso livro, e o que disse me preocupou ainda mais:
” – Advinha quem proferiu a oração fúnebre de Mirandola?”
E ele mesmo respondeu:
“- O próprio Senhor Inquisição – Girolamo Savonarola!”
E com voz conspiratória:
” – Tenho razões para acreditar que Pico de Mirandola foi vítima de um envenenaamento por arsênico, por ordem do sinistro Piero de Medici, que sucedeu a Lorenzo, o Magnífico”.
E ali fiquei, sentado naquele banco de pedra, sem saber o que fazer com a bolsa de compras em meu colo, onde havia um livro raríssimo, que certamente pertencia à Biblioteca do Vaticano.

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