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Erico, Cada Vez Mais Veríssimo

Por Silas Corrêa “Ler Erico Verissimo é essencialpara a compreensão da mentalidade brasileira…” (Moacir Scliar) Um dos dez maiores escritores brasileiros de todos os …

Por Silas Corrêa

“Ler Erico Verissimo é essencial

para a compreensão da mentalidade brasileira…”

(Moacir Scliar)

Um dos dez maiores escritores brasileiros de todos os tempos,  faria cento e dez anos em 2010, e, agora, finalmente, recebeu o reconhecimento definitivo que a sua vasta obra escrita merece, pois está sendo totalmente reeditado pela famosa Editora Companhia das Letras de São Paulo em condições especiais até mesmo de divulgação e de impressão. Nada mais justo. Falando por mim, por exemplo, eu “aprendi” a escrever com o Mestre Erico Verissimo, um nato contador de histórias compridas, regional e universal ao mesmo tempo em que altamente produtivo – canta a sua terra e serás eterno, diria Tolstói – além do homem que sempre surpreendeu a algumas categorias históricas (e histéricas) rotuladas por fugir dos vareios de paradoxos a seu respeito; de discussões sobre o sexo do anjo em braile, sobre sua postura em si, porque ele mesmo foi, sim, um homem simples, comum, do povo, que se misturava com o povo e se parecia com o povo, produzindo uma ficção humanista, mais os seus profundos olhos apreendedores de captar conflitos reais vivenciados, ou espetaculares histórias imaginárias que prendiam o leitor pela palavra, com começos, meios e fins, como se nos tomasse pela mão e nos dissesse, “venha, vamos comigo por essa havência que vou lhe prosear direitinho de cor e salteado”. Ave Erico. Quem sabe, sabe.

Relendo-o, a pretexto de, também – lazer e cultura – me reconhecer nesses brasis gerais de pagos sulinos, fica-nos a impressão de um despojo nas criações, uma felicidade de produzir gostoso mesmo que como válvula de escape às vezes por problemas no clã, daí a nos ascender nas primeiras escritas, releituras e proseios magnos desse estupendo gaúcho-brasileiríssimo e universalmente de há muito reconhecido. Sim, é preciso reler Erico Verissimo com olhares novos e sem nódoas de intenções rotuladas por épocas de utopias (e transgressões de rebeldes sem causas); alguns pseudos-críticos de ocasião que enxergavam, o que não existia e assim tramaram tramóias que, certo, não atingiram Erico Verissimo que, certamente continuou produzindo a todo custo, pleno e a todo vapor, sem rodeios. Ele mesmo inteiro, apreciado no mundo todo mesmo quando aqui o queriam encurralar com ditames inócuos ou vis. Seus livros eram suas viagens, sua pátria era a sua escrita; sua derrama de olhos especiais era o dizer-se em romances que marcaram épocas e alimentaram fantasias, ilusões. Um craque nisso. Por isso, o tempo – o melhor juiz, claro – o revelara então. Muito justo.

Sim, é preciso reler Erico Verissimo, do épico “O Tempo e o Vento” ao “Incidente em Antares” (que estou adorando reler miudinho nesses tempos de vacas sacras) – acho que é uma das melhores obras dele e uma das melhores do Brasil  em 504 anos – bem ao meu gosto em seu adorável estilo. Li tudo do Erico quando ainda saindo das barras das saias da mãe de sangue e da terra-mãe, para o aprendizado de renúncias afetivas, a descoberta da palavra pelo ensino-aprendizagem, da leitura pela fuga-ilha-crusoé, do desmundo acima desse mundo cão, quando ali me fiquei hospedeiro e noiteadeiro a tirar proveito de Erico para ser-me,  ser-me ser e, acima de tudo, criar o inexistente, inventar o dizível, troçar, conflitar, saber esse Brasil de calças curtas em berço esplêndido de antagonismos e prosopopéias do arco-da-velha. Peguei o espírito do Erico? Deve ser isso. Possa ser.

Em férias na minha Estância Boemia de Itararé (que ele cita em passant em seu ‘Incidente em Antares”), quantas vezes reli até mesmo “Israel em Abril” e “Gato em Campo de Neve”, além do livro “México”, nos quais ele se mostrava passeador, peregrino, passageiro de estradas exóticas e mundos distantes, para meus sonhos, sabenças e adoração. E também tive a oportunidade de ler clássicos em suas belas transcriações-traduções, via editora Globo, porque sem ele estávamos boiando aqui e ali por falta de conhecimentos de talentos europeus, pelo menos em versões francesas do qual ele fazia recolhes e depurações. E já me mirei: quando sair do Brasil (como sonho uma viajona, uma bolsa de estudos, um sonho impossível) já tenho minha tentativa de mostrar resultantes desse aprendizado-Verissimo: escrever sobre os locais, as pessoas, dando minha opinião in loco sobre as contentenzas, prazeiranças, e, claro, riscos e medos de terras estranhas. Como aprendi a conhecer bem o Brasil também a partir de Erico, saberei com certeza reler esse mundão em minhas próprias pelejas, pegadas e palavras ao sabor dos ventos e passaportes carimbados.

Na minha alma ledora (gosto mais de ledora do que de leitora), foi o Mestre Erico Verissimo quem carimbou o passaporte do sonho, do guri com amarelão – que amava os Beatles e Roling Stones – a saber a fundo os tópicos frasais bem construídos, as expressões idiomáticas e típicas, numa salutar e saudável mixórdia de macadames em palavreares gostosos, em que eu, sim, como o guri Saramago pelo mão do avô contador de causos, eu, imberbe e moleirão, entocado, fugindo de catar coquinhos, de pentear macacos, de caçar sapos, de pular carniças, de inventariar chuvas de canivetes, cainho e sonhador de uma terra de leite e mel, pela palavra-mão de Erico ia-me felizardo e perene aprender o ofício-tessitura da palavra encantada que me minha imaginação saradinha e pura de tudo carecia bem. Benza-Deus. Bons tempos aqueles.

Sim, é preciso reler tudo de Erico Verissimo, de Clarissa a Música ao Longe, de Solo de Clarineta a Olhai Os Lírios no Campo, que esses foram, sim, meus primeiros livros de prosa que adorei ler, e que ainda trago nas paredes da memória o cheiro das páginas amareladas, as marcas das páginas marcadas a suor e unha, as dobraduras para o dia seguinte entre uma polenta de milho branco e um pastel de couve, porque Erico é daqueles que você pega pra ler e ele pega você pela leitura e vai na soma a empatia palavra-olhar. Nunca mais houve um outro Verissimo como esse, é vero, nem o causeiro Luis Fernando, que mais enfeita o pavão de uma piada pronta com citações culturais, ou mesmo citações possantes em outra língua, mas nem chega aos pés do mestre-genitor, apesar de muito ouro em pouco pão, em que ler não é tudo, só parecer que vale o quanto não preza. Homenageá-lo com leitura ou releituras, ou mesmo reedições de quilate é pouco perto do que ele merece mesmo.

Houve um tempo, na pobreza de minha infância humilde, que Erico Verissimo, caindo-me às mãos como mirra por bondade de vizinhos, era tudo o que eu queria ser, que eu podia ser num crescendo, era tudo com o que eu me contentava entre bois de sabugos e fords de carretéis de linha de coser, como se fosse no prazer de tão gostosa leitura o meu não-lugar, um estado idílico que a sua prosa me conduzia para, pelo menos ali, eu sonhar mundos melhores, campos de trigos sem corvos. Esse foi Erico Verissimo pra mim.

Agora que o vão relançar, ele, Erico, cada vez mais Verissimo, poderá ainda em tempo recompor tantas estantes vazias com suas preciosidades, ganhando assim a literatura brasileira para essa juventude transviada, um referencial de qualidade para se recompor, e, talvez, mas só talvez, medir-se entre tantos novos nadas, novos manés-ninguéns, e assim como eu, aprender com Erico Verissimo a qualidade humana do autor e a qualidade narrativa da criação propriamente dita, que é o que vale mesmo um grande romance, uma grande obra que o tempo confirma, consagra e leva como mensagem de grandeza para o futuro.

E com licença que vou paginar meu Incidentes em Antares, Coleção Sagitário, Terceira edição, Editora Globo, 1971 – Meu Deus! –, romance brasileiro de 485 páginas para se ler com orgulho de ter um escritor desse porte em terras brasilis.

A benção, Mestre Erico Verissimo! Estamos aqui tomando um mate amargo, nesse Brasil-continente, sandálias de humildade, fósforo aceso na mão, levando sua luz pelo perigoso caminhar adiante, na escuridão de horrores de homens insanos com um neoliberalismo amoral que fale a condição humana mais primitiva.

Ainda não perdemos a herança magnífica de tua esperança-andaime, prisioneiros de somos entre gente e bichos, nesses caminhos cruzados mais o retrato de tua saga literária por nosotros, os brasileirinhos que, entregues a própria sorte, ainda assim sonham um lugar ao sol.

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