Há muito tenho usado as experiências com meu filho José Pedro, de seis anos, para tentar entender os rumos que estão tomando os meios de comunicação e qual será o papel dos profissionais da nossa área neste novo contexto. A verdade é que o viés ansioso e pouco ortodoxo com que as crianças estão consumindo conteúdos nos traz muito mais pontos de interrogação do que certezas, mas alguns sinais são tão claros que merecem a nossa atenção. O primeiro deles é o caráter multidisciplinar que carregam as crianças desta geração: às vezes, elas estão fazendo três ou quatro coisas simultaneamente, para espanto e deleite dos mais velhos. As antenas das crianças estão sempre ligadas. Dias desses, meu filho começou a cantarolar sozinho o jingle institucional da Rádio Grenal, embora nunca tenha sintonizado um aparelho de rádio em sua vida. Mesmo sem escutar rádio, enquanto brinca, mexe no celular ou faz as lições de casa, o pequeno José Pedro está com as orelhas em pé para o que está sendo ouvido – ou falado – no outro quarto.
Um segundo ponto que me chama a atenção é a especificidade, os interesses nichados e clusterizados que as plataformas como TikTok e YouTube despejam sobre a audiência: há influencers e geradores de conteúdo específicos para o futebol, para os super-heróis e para as histórias infantis, dentre um sem-fim de outras temáticas. Quanto mais a criança consome um destes tipos de conteúdo, obviamente mais ela passa a recebê-lo. A internet vai traçando um perfil do que gostamos e tratando, com muita competência, de nos prender a conteúdos que nos atraiam. Até aí nada de novo, mas onde entram os profissionais da comunicação neste cenário? Para mim, está cada vez mais claro que o mundo, a internet e o mercado de trabalho estão abertos aos especialistas. Não há, nem em profissões mais cartesianas e nem nos canais de comunicação, brechas abertas para generalistas. No meu caso, como exemplo, em que atuo há 18 anos no ramo de supermercados, o caminho natural para um futuro dentro da comunicação será certamente a criação de conteúdos sobre varejo alimentar – independente se a difusão deste material vai se dar por um canal de YouTube, programa de TV ou coluna em jornal. O mundo é, de uma vez por todas, um lugar para os especialistas.
No próprio varejo supermercadista essa especialização é notadamente uma realidade: enquanto até bem pouco tempo alguns supermercados de grande porte mantinham uma gestão centralizadora, cujo fundador, diretor ou presidente era uma espécie de faz-tudo e liderava os processos de todas as áreas, hoje a busca por profissionalização e descentralização em companhias de médio porte desse setor já é uma necessidade imperiosa. Como o mercado é muito competente para impor concorrência e espremer as margens, somente a gestão e operação de excelência em todos os setores garante um lugar de vanguarda para os supermercados mais eficientes. Criou-se, portanto, a demanda por especialistas de áreas como RH, tecnologia e comercial, dentre outras. No YouTube, na comunicação ou nas empresas varejistas, é, portanto, o momento de direcionarmos nossas carreiras para o aprofundamento de temáticas que sejam relevantes aos nossos públicos-alvo. Percebam, enquanto nas redações há cada vez mais jornalistas cobrindo as mais diferentes editorias em um mesmo dia, o mundo clama por especialização, conhecimento e minuciosidade. Não é um contrassenso?
Francisco Brust é jornalista.


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