Por João Carlos Ferreira da Silva
Há algumas semanas, o Inter vendeu para o Toluca, do México, o volante Wilson Matias, encerrando, dessa forma, uma trajetória de pouco brilho do jogador em Porto Alegre. Antiga e sem muita importância, essa notícia nem mereceria ser tratada agora, não fosse, como diriam os modernos do jornalismo, “emblemática” do que anda fazendo a mídia esportiva gaúcha.
Wilson Matias esteve por cinco anos no futebol mexicano, e lá chegou a pensar em naturalização, pois tinha grande chance de ser convocado para a seleção nacional. Em 2010, porém, o Inter começou a negociar sua vinda, e, entusiasmado, o vice-presidente Fernando Carvalho revelou à Rádio Gaúcha que estava tentando “uma contratação espetacular”.
A tentativa deu certo, mas, antes mesmo de desembarcar no Salgado Filho, Matias já estava sendo confrontado com a suposta condição de “espetacular”. Estreou, fez mais alguns jogos sem destaque, e o apelido ali, sempre lembrado: onde estava o espetacular? A torcida não gostou, passou a vaiá-lo.
Uma noite, em entrevista ao mesmo programa no qual fizera a afirmação anterior, Fernando Carvalho pediu para esclarecer: nunca chamara Matias de espetacular, falara em “contratação espetacular” porque na ocasião era considerada muito difícil, o jogador estava bem no México e interessava a vários outros clubes brasileiros. O apresentador concordou de pronto, e Carvalho ainda salientou que seu comentário, distorcido, prejudicava Matias, que não tinha culpa nenhuma.
Mudou alguma coisa?
Nada!
Dois ou três dias depois, em sua coluna de jornal, o mesmo apresentador cobrava a suposta espetacularidade de Matias, o que praticamente toda a imprensa esportiva gaúcha continuou fazendo enquanto ele permaneceu no Inter. E até quando saiu: as matérias anunciando seu empréstimo à Portuguesa, no início do ano, e a venda ao Toluca, um pouco depois, não deixaram de dizer que o volante jamais confirmara a condição de espetacular.
Verdade que nem todos foram atrás: nos comentários às notícias sobre sua venda, muitos torcedores, mesmo salientando que não gostavam do jogador, fizeram a ressalva de que a afirmação do dirigente tinha sido distorcida. Mas, que eu saiba, nenhum profissional se corrigiu por isso, ninguém pediu desculpas pelo erro.
Enfim, talvez quase tudo tenha terminado bem: o Inter se livrou de uma contratação que não tinha dado certo, Matias ganha a chance de recuperar sua fama no México, a torcida encontrará outro alvo para sua ira.
Só não fica bem a imprensa esportiva, que precisa pensar menos no espetáculo e mais na informação.

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